quinta-feira, maio 04, 2006

Um Fado Triste para Além Mar

"Gostava de morrer de repente. Acho que as
pessoas deviam ser como as maçãs, cair da árvore."
Amália Rodrigues





Estranha forma de vida
Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.

Amália Rodrigues

Vida para as Fontes Murmurantes




E a vida?
E a vida o que é diga lá meu irmão?
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce desilusão?
Mas e a vida?
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é o que é meu irmão?
Há quem fale que a vida da gente
É um nada no mundo,
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo,
Há quem fale que é um divino,
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor,
Você diz que a luta é prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que é melhor morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé,
Somos nós que fazemos a vida,
Como der ou puder ou quiser

Sempre desejada
Por mais que esteja errada,
Mas ninguém quer a morte,
Só saúde e sorte
E a pergunta roda,
E a cabeça agita,
Fico com a pureza da respostas das crianças
É a vida , é bonita, é é bonita
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz
Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será

Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita, e é bonita

(O Que é o Que é - Gonzaguinha)

quarta-feira, maio 03, 2006

Origem da Coroa de Ariadne

Ovidio - Os Fastos 8 de Março.






Logo à seguinte noite aparece a coroa da Cretense, infeliz mas venturosa,
Que a afronta de Teseu tornou deidade.

Abandonada pelo esposo pérfido,
esquecido do horrendo labirinto
E fio salvador, já engana Ariadne
Melhor cônjuge encontra em Baco; entre as delícias
Do leito segundo, alegre exclama:
- "E eu louca a prantear-me! oh! graças! graças
Perjúrio de Teseu!" [


Baco entretanto,
O seu Baco, o seu Líbero, o seu tudo,
O seu tão lindo dos gentis cabelos,
Houve de se ir a terras do Levante.
Foi, venceu Indos, regressou coberto
De oriental opulência.

Entre as cativas
Que traz de peregrina formosura,
Uma vem, que em beleza excede a todas,
Filha do rei vencido, e vencedora
Do próprio vencedor.

Amante esposa
Adivinhou seu mal, chora em segredo.
Anda ao longo da praia sinuosa,
Aflita, esparsa a cabeleira; a sós vagueia;
Solta ao frígido vento as mágoas ternas:

– "Ouvi segunda vez os meus queixumes,
Vagas do mar! bebei as minhas lágrimas
Segunda vez, areias desta praia!
Aqui mesmo hei clamado (inda me lembra!)
Vai Teseu desleal! Teseu perjuro!
Foi-se, vem Baco, e o seu exemplo imita:
Baco é perjuro, é desleal como ele.

"Posso hoje, como então, clamar: – Ai! loucas!
Não vos fieis, não vos fieis dos homens;
Sou de novo traída; é só diverso
O nome do traidor!

"Ai! por que, ó destino,
Me abreviaste a primeira desventura?
Se a deixasse correr... já no presente
Não existia a vítima!

"Tirano! Quem te pediu, quem te mandou salvar-me?
Em Naxos sepultadas minhas penas
Ficariam comigo!

"Ai! Baco! Baco!
Mais versátil que as videiras que te ornam!
Haver-te eu com tal júbilo avistado
Para chorar-te agora! ousaste, ingrato,
Vir com minha rival ante os meus olhos,
E a tão suave amor dar fim tão cruel?!

"Que é da jurada fé? que é desses votos,
Renovados por ti de instante a instante?

"Mísera! sempre, sempre iguais lamentos,
E sempre, e sempre em vão!

"Teseu culpavas,
Impunhas?lhe rótulo de falso,
E o foi; mas condenaste-te chamando-o.

"Ninguém saiba o que eu sofro; ânsias desta alma,
Devorai-me em segredo; que não digam
Que eu nunca mereci senão repúdios!

"Teseu mais que ninguém meu mal ignore;
Não quero que o malvado se glorie
De que um deus foi como ele!
A mim! a Ariadne
Rivais assim!


"Sem dúvida sou escura,
E ela branca de neve! o carão dela
Tenha-o quem me quer mal.

"Porém que importa?
Gostas do negro, apraz-te a escuridão.

"Furta o cândido corpo aos seus abraços
Se não queres tisnar-te.

"Oh! não prefiras,
Meu Baco, outra mulher à nobre esposa.

"Minha mãe foi de um touro enamorada;
De sua fronte cornífera a lindeza
A cegou; deu-lhe opróbrio esse transvio;
Tua fronte cornífera, meu deus,
Seduziu-me também, mas deu-me glória.

"Se me punes de amar-te é ser injusto;
Puni-te eu, quando amor me declaraste?

"Se ardo por ti, se me abrasaste e abrasas,
Que admira? não se diz que origem tua
Fora o fogo do céu? que à luz vieste
Pela paterna mão roubado às chamas?!

"Sou inda a tua Ariadne; a tua; aquela
A que os céus tantas vezes prometias;
Pelos céus, ai de mim! tenho este inferno!"

Calou. Baco seguindo-a ocultamente
Da esposa as mágoas lhe escutara;
Ei-lo em súbito abraço a aperta, a beija,
E com beijos as lágrimas lhe enxuga:

– "Voemos ao mais alto firmamento,
Os dois a par" ? exclama; ? "associamos
Cá, o amor; lá, até o nome associaremos:
Libero eu sou; tu, Líbera te chama.

"Agora que o teu ser vai transformar-se,
Penhor do afeto meu lhe ponho ao lado
A coroa dada por Vulcano a Vênus,
E por Vénus a ti."

Preenche o dito:
As nove* gemas que a marchetam, muda?as
Em nove estrelas, com que brilha a coroa.

* Erro de Ovídio ou no antigo céu de Roma sem iluminação se contavam nove onde hoje só se avistam sete estrelas?

De Ariadne a Teseu

Toda a raça dos animais me pareceu mais amável do que tu
e não tive que temer de nenhum ser maior mal do que me causas.





O que lês eu te envio, Teseu, da praia onde tuas velas levaram sem mim teu navio, do lugar onde fui indignamente traída por meu sono e por ti, que te aproveitaste dele vergonhosamente.

Era o instante em que a terra fica coberta pelo transparente orvalho da manhã, em que os pássaros gorjeiam sob as folhagens que os cobrem. Nesse momento de despertar incerto, lânguida de sono, estendi, para tocar Teseu, mãos ainda entorpecidas; ninguém ao meu lado; estendi-as de novo, procurei mais; agitei meus braços na cama; levantei apavorada e me precipitei para fora desse leito solitário. Meu peito ressoou sob minhas mãos e meus cabelos, que a noite despenteou, foram arrancados. A lua me iluminava; observei se podia ver algo além da praia; a meus olhos não se apresentava nada além da praia. Corri para uri lado, para o outro, por toda parte, com tini passo inseguro. Uma areia profunda retinha meus pés de moça. Entretanto, ao longo da praia, minha voz gritou: "Teseu"; as grutas repetiam teu nome; os lugares por onde errei te chamaram tantas vezes quanto eu e pareciam querer socorrer uma infortunada.

Há uma montanha que no alto possui poucos arbustos; dali pende uma rocha minada pelas águas que estrondeiam a seus pés. Subi ali (a coragem me deu foras) e media vasta extensão dos mares que domino. Desse ponto (pois os ventos cruéis me ajudaram), vi tuas velas infladas pelo impetuoso Noto. Eu as vi de fato ou acreditei vê-Ias. Tornei-me mais fria do que o gelo, e a vida quase me fugiu. Mas a dor não me deixou muito tempo imóvel; ela logo me excitou; ela me excitou e eu chamei Teseu com toda a força de minha voz. "Para onde fugiste? Gritei; retorna, criminoso Teseu, vira para cá teu barco, ele não está completo".

Tais foram minhas preces; os soluços substituíam o que faltava a minha voz: golpes acompanhavam as palavras que eu pronunciava. Como não me atendeste, estendi, para que pudesses ao menos ver-me, meus braços fazendo-te sinais. Amarrei a uma comprida vara uma vela branca, para que lembrassem de mim aqueles que me esqueceram. Já o espaço te furtava à minha vista; então finalmente chorei pois a dor tinha até aquele momento interrompido o curso de minhas lágrimas. O que poderiam fazer meus olhos a não ser chorar por mim, já que tinham cessado de ver teu navio? Ora errava sozinha, com os cabelos desordenados, como uma bacante agitada pelo deus que o povo de Ógiges adora, ora com o olhar fixo sobre o mar, sentava-me sobre uma rocha, tão fria e tão insensível como a própria pedra que me servia de assento. Pisei muitas vezes o leito que nos tinha recebido e

que não deveria mais nos reunir. Toquei, o mais que pude, tuas impressões no teu lugar e o espaço que teus membros esquentaram. Atirei-me nele, e, inundando esse leito com as lágrimas que derramava, gritei: "Nós dois te esmagamos; recebe-nos ainda. Viemos aqui juntos; por que não irmos embora juntos? Leito pérfido, onde está a melhor parte de mim?"

O que farei? Para onde levar meus passos sozinha? A ilha é inculta. Não vejo nem os trabalhos dos homens nem dos bois. O mar banha em todo lugar as costas desta terra. Nenhum barco, nenhum está prestes a abrir rotas desconhecidas. Supondo que companheiros, ventos favoráveis e um barco sejam-me concedidos, para onde iria fugir? A terra paterna me recusa qualquer acesso.' Quando minha proa afortunada sulcar os mares tranqüilos, quando Éolo tornar os ventos propícios, serei uma exilada. Creta, com cem cidades soberbas, país que conheceu Júpiter no berço" não a verei mais porque traí meu pai, traí o reino governado por seu cetro justo, faltei a esses dois nomes tão queridos no dia em que, para salvar-te da morte, antes da tua vitória na muralha de mil voltas, dei-te por guia um fio que devia seguir teus passos. Disseste-me então: "Juro por esses perigos que tu serás minha enquanto vivermos". Nós vivemos e não sou tua, Teseu; se é que eu vivo, mulher que amortalhou a traição de um esposo perjuro.

Não me imolaste também, cruel, com a mesma clava que abateu meu irmão?; Essa morte te isentou do juramento que me fizeste. Agora revejo não apenas os males que devo suportar, mas todos os que pode sofrer uma mulher abandonada. A morte se revela ao meu espírito sob mil aspectos diferentes. Sofremos menos recebendo-a do que esperando-a. Vejo se aproximarem, de um lado ou de outro, lobos que com dentes ávidos rasgarão minhas entranhas. Talvez também o solo nutra leões com jubas avermelhadas. Quem sabe se esta ilha não é infestada de tigres ferozes? Dizem também que o mar vomita aqui enormes focas. Quem impede que gládios atravessem meu flanco? Só espero não gemer, como uma cativa, sob o peso cruel das correntes; não ver, como escrava, minhas mãos condenadas a um trabalho estafante, eu, de quem Minos é pai, e a mãe uma filha de Febo, eu, e é isso que não posso esquecer, eu que fui tua noiva! Se observo as ondas, a terra e as praias longínquas (a terra e as ondas me fazem as mesmas inúmeras ameaças. Restou o sol: temo os deuses e até suas imagens.) Sou uma presa, uma isca jogada sem defesa aos animais ferozes. (Ou, se homens cultivam e habitam esse lugar, eu desconfio deles. Minhas desgraças me ensinaram a temer os estrangeiros.)

Quisesse o céu que Androgeu não tivesse vencido, e que tu não tivesses expiado, terra de Cécrope, um assassinato ímpio com teus funerais; que teu braço cruel, armado com uma nodosa clava, não tivesse, ó Teseu, imolado o monstro, metade homem, metade touro; que eu não tivesse, para orientar o teu retorno, confiado a tuas mãos um fio que me atraiu para ti!

Não me surpreendo, afinal, de que a vitória tenha sido tua e que o monstro tenha tingido com seu sangue a terra de Creta; seu corno não podia furar um coração de ferro; sem escudo, teu peito bastava para te defender. Tinhas ali o pedregulho, o diamante, e tens aí, Teseu, como vencer o pedregulho.

Sono cruel, por que me retiveste nesse torpor? Eu devia desta vez ficar amortalhada na noite eterna! Vós também, ventos cruéis, tão obsequiosos naquele momento, vós que o servistes às custas de minhas lágrimas; tu, mão cruel, que feriste de morte meu irmão e eu; promessa vã, concedida a minhas preces; tudo conspirou contra mim, sono, vento, promessa; sozinha uma jovem foi vítima de uma tripla traição.

Prestes a morrer, não verei as lágrimas de uma mãe e nenhum dedo fechará meus olhos? Minha infortunada alma levantará vôo sob um céu estrangeiro e uma mão amiga não perfumará meus membros inanimados. Os pássaros marinhos abaterse-ão sobre meus ossos que não serão enterrados? É essa a sepultura que por meus benefícios mereci? Entrarás no porto de Cécropes; quando fores recebido em tua pátria, de tua alta morada verás a multidão se comprimindo para ouvir-te contar pomposamente a morte do monstro, metade touro metade homem, e como percorreste os caminhos sinuosos do palácio subterrâneo. Conta também que me abandonaste numa praia solitária; eu não devo ser esquecida entre os teus títulos gloriosos. Não tens como pai Egeu, nem como mãe Etra, filha de Piteu; os rochedos e o mar são os autores de teus dias.

Que não me tenhas visto do alto de tua popa! Tão triste espetáculo teria enternecido teu coração. Agora, vê-me, não mais com os olhos mas na imaginação, se puderes; vê-me ligada a um rochedo onde vem quebrar-se a vaga inconstante; vê a desordem de meus cabelos atestando minha dor, e minha túnica inundada de lágrimas como se a chuva a tivesse molhado. Meu corpo estremece como a espiga agitada pelo Aquilão e minha letra treme sob minha mão oscilante. Não te suplico em nome de um favor que terminou tão mal para mim; que nenhum reconhecimento seja devido ao serviço que te prestei, mas nenhuma piedade também: mesmo não sendo a causa de tua saúde não haveria motivo para que tu sejas a causa de minha morte.

Infeliz! Separada de ti pelo vasto mar estendo para ti essas mãos fatigadas de ferir meu pobre peito. Mostro-te, banhada em pranto, os cabelos que escaparam de meu furor. Eu te suplico, com lágrimas, que aplaques tua crueldade, Teseu, volta para mim a proa de teu barco; retorna, que os ventos te tragam. Se eu sucumbir antes do teu retorno, ao menos enterrarás meus ossos. ( Ovídio – As Heróides)

quinta-feira, abril 27, 2006

Soneto do Amor total


Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do
que pude.

(Vinícius de Moraes)

terça-feira, abril 25, 2006

Selene e Endímion.


Endímion foi um rei sagrado dos Etólios, que os conduziu da Tessália para Elida. Era filho de Zeus e da ninfa Cálice, herdando do pai a força e o poder de liderar homens e da mãe a beleza, sendo um dos mais belos personagens da mitologia grega.
Um dia, enquanto pastoreava os seus rebanhos, adormeceu numa colina e foi despertado pela luz da lua cheia, que havia se aproximado tanto que quase ele poderia tocá-la com sua mão. Maravilhado com a lindeza e perfeição da titânide Selene, ele passou a maldizer o destino humano. Imaginou-se com o rosto sulcado de rugas e o encanto do seu corpo viril arruinado por Cronos, perderia o volume e as carnes flácidas cairiam penduradas nos ossos. Como podia Selene, quase tão velha quanto o Tempo, se manter tão jovem e luminosa e permanecer no mundo enquanto o destino dos homens era se transformar em pó? Passou o resto da noite em claro, em sua admiração revoltada para com a lua que, como toda mulher, se fez ainda mais linda e cintilante para prender a sua atenção.
Este voltou com seu rebanho nas semanas seguintes e passava em claro suas noites observando o passeio diário que Selene fazia no céu, aparecendo inteira, reduzindo até que sumisse de vez , para novamente aparecer tímida num fio em forma de arco.
Meses se passaram e, longe de seu reino e família, Endímion já não queria voltar para sua casa. Os filhos já cresciam, podiam cuidar do seu reino, e sua mulher já não lhe despertava o fascínio de outrora e, mesmo sem perceber, passou a desejar a lua. Sabia exatamente em que ponto do horizonte ela apareceria em cada dia e com os olhos fixos, às vezes banhados em lágrimas, esperava por ela. Nutrindo esta paixão impossível, ele não percebia que afrontava os deuses com sua pretensão e a cada manhã amaldiçoava-os e a sua condição de humano. Ele era filho de Zeus, por todos os lugares que passava ouvia que era semelhante aos deuses por seu porte e beleza, porque então não era divino e imortal?
Selene, a Cintilante, era filha de Hipérion e Tia, e percorria o céu num carro de prata puxado por dois cavalos brancos. Na primeira noite que Endímion dormia ao relento com suas ovelhas, admirou-se com sua beleza e fez com que a noite parasse para poder se encantar com o belo rosto do homem que dormia. Lentamente aproximou-se dele fazendo com que a lua quase se encostasse a terra, e com seus alvos dedos de raios de luar acariciou o belo rosto fazendo com que o pastor despertasse.
Durante o período de enlevo de Endímion, Selene se fazia a cada dia mais linda, vestia-se de prata e branco, destacava seus olhos azuis-claros com sombras das cores do amanhecer para encantar ainda mais seu apaixonado. E como a distancia os separava, somente seus olhares se tocavam.
Como nada na terra escapa os olhos dos deuses, este romance e a indignação de Endímion com os deuses logo se tornaram assuntos, deixaram de ser comentários sussurrados para serem ditos em viva voz no Olimpio. Os deuses não admitiam que um mortal se comparasse a eles, e juntos foram a Zeus pedir uma punição às ousadias do rapaz, para que o pai dos deuses lançasse Nemésis e suas fúrias sobre ele.
Zeus, que amava seus filhos mortais, se esquivou do assunto, passando para Hera a incumbência de castigá-lo. Porém quando a deusa do céu fitou o rapaz nos olhos compreendeu sua revolta. O louro cabelo do Etólio, cortado à maneira de Teseu, curtos na frente para que não atrapalhassem a visão e longos até abaixo dos ombros na parte traseira, o nariz perfeito e a harmonia de suas feições encantaram a deusa, que imediatamente aceitou a causa do rapaz, afinal eram tantos os bastardos de Zeus que, porque este, o mais perfeito de todos, não teria o direito à imortalidade ?
Voltou ao Olimpo e conversou com Zeus, argumentando que este era seu filho, por que então condena-lo se sua reivindicação era justa? Se não tivesse nascido tão belo e forte, e não tivesse a revolta com a morte não seria filho de Zeus, por que culpá-lo se tudo que Endímion fazia era de sua natureza? Nada mais natural que ele, sendo filho de Zeus, fosse orgulhoso de sua linhagem.
Zeus rapidamente percebeu, enciumado, que o rei pastor encantara sua esposa como antes já havia encantado sua amante Selene, e que se ele não desse um basta, logo todas as deusas defenderiam sua causa. Com sua astúcia, vinda de Métis, Zeus decidiu-se, atenderia às reivindicações de seu filho, o tornaria imortal e o manteria jovem pela eternidade, mas para garantir a fidelidade de sua esposa, ele viveria eternamente mantendo sua beleza, dormindo. E desceu a terra para expor a Endímion seu castigo.
Hera porém conhecia muito bem seu esposo, e não confiava no seu julgamento. Conhecida como a que tem mil olhos e cujo animal é o pavão que traz em sua cauda os mil olhos bovinos de Hera, espreitou enquanto Zeus fazia a sua proposta ao moço. Protetora dos casamentos e dos romances conjugais, ela ficou penalizada com a decisão de Zeus. O romance de Endímion e Selene nunca se realizaria se ela não agisse rápido.
Vestida com as cores do Céu, desceu novamente à terra e de lá ao Hades, na terra dos Cimérios, adentrou no sonolento palácio de Hipno, o filho da Noite e de Érebo, e entre espíritos adormecidos, conversou com o irmão de Tânato. Pediu-lhe que não desobedecesse ao Rei dos deuses, e cumprisse exatamente o que lhe foi pedido, porém deveria acrescentar duas coisas, que Endímion dormisse com os olhos abertos para que pudesse ver Selene e que seus sonhos sempre fossem o que ele imaginava durante o período que passou apaixonado pela Titânida. Com isto, Hipno não desagradaria a Zeus e também agradaria a Senhora dos Céus, e assim foi feito.
Conformado com sua sina, Endímion deitou-se no morro onde pela primeira vez sentiu a presença de Selene, e adormeceu com os olhos abertos e voltados para o céu. E logo ao anoitecer Selene veio vê-lo, compungida pelo castigo infligido ao seu amado e enternecida acariciou sua face, e neste momento os olhos dele a fitaram, e no seu sonho ele murmurava palavras de amor a ela. Percorrendo o corpo do amado com seus argênteos dedos, percebeu que ele reagia aos seus estímulos e penetrou nos seus sonhos.
Longe do mundo real, onde a distancia os separavam, eles se amavam nos sonhos e a cada nova noite Selene deixava que seus cavalos, a tanto treinados em percorrer o céu noturno, levassem seu carro luminoso e, se despindo suas roupas de luz, se deitava junto com o amante e penetrava nos seus sonhos. O corpo dele, reagindo aos estímulos, ficava pronto para o amor e os dois se amavam tanto no onírico quanto na realidade. Deste amor nasceram as 50 filhas da Lua e, das filhas desta, os sonhos femininos das que amam à distancia os amores impossíveis e os concretizam, ainda que de forma onírica.
Até hoje quando vemos uma lua esplendorosa e radiante no céu nos lembramos que, em algum canto da Grécia, um rapaz que dorme com olhos abertos a fita e sonha, é para ele que Selene se faz tão bonita

quinta-feira, abril 20, 2006

Aos Nefelibatas como Eu e Você.




Que palavra linda !!! Muitas vezes eu e a Deusa, ficamos falando de palavras e sons que gostamos, palavras sonoras como o nome do blog dela Água Potável, que soa maravilhosamente A-gu-a Pó-tá-vel, ou Sibilante, que nos lembra uma cobra esguia, ou o vento passado pelas arvores ou entre as pedras como na cova da Sibila de Cunas, e tantas outras como Libidinoso, Lúbrico e etc...
Como podemos dizer também o estado em que vivemos eu e ela nestes últimos meses em apenas uma palavra, felizes e apaixonados é muito pouco, estamos além disso. E do nada apareceu uma visitante aqui no blog, que por um acaso também adora Madredeus e me convidou para visitar o blog dela, que é outro labirinto pessoal, e nele estava a palavra que precisávamos, antiga e esquecida neste tempo de frases curtas e de lideres mundiais medíocres, nos dando a impressão que a inteligência abandonou o planeta.

Pois bem, lá vi a palavra que faltava para definir o estado que vivemos: somos nefelibatas, “do Grego nephéle, nuvem + bates, que anda”, ou seja vivemos nas nuvens, andamos flutuando no céu e acreditamos no amor. Não naquele amor ideal, que os incompetentes na arte de amar esperam que aconteça para eles: que uma alma gêmea caia do céu no colo deles. Mas sim o amor sofrido de superar as diferenças, de batalhar dia a dia para encaixar peças de um quebra-cabeça maluco onde aparentemente nada encaixa em nada. Mas, percebendo as sutilezas e as nuances de cada uma das peças, que cada um de nós dois com vidas pregressas completamente diferentes traz. Um amor de conhecer, compreender e aceitar as diferenças. Amor de mudar a vida, não por nenhuma exigência, mas por acreditar que a mudança fará bem ao casal, Amor que dói a cada segunda feira, depois do fim de semana juntos, separados pelo trabalho.
Andamos nas nuvens, muito acima dos mortais e mais próximos dos deuses, como nos diz Pessoa, travestido em Ricardo Reis, “Os deuses são deuses Porque não se pensam”, e juntos não nos pensamos, vivemos em um Olimpo só nosso; em que estamos no eixo da roda da fortuna, e a vida real gira em torno de nós dois. Embora o mundo esteja burro, o trabalho escasso e o dinheiro curto, isto no máximo nos preocupa, sem interferir no que sentimos quando estamos perto ou quando nossos lábios se colam em intermináveis beijos.

História longa que começou há 5 anos com uma troca de olhares, e depois de 3 anos de desventuras, nos reencontramos em uma noite de abril, que passou com dois cafés e um suco e beijos intermináveis e nos assustamos com o amanhecer, pois 8:00h se passaram num átimo de segundo, e prosseguiram no dia seguinte e nos 717 dias que estamos juntos.

É claro que foi difícil, tivemos maus dias, momentos horríveis, mas a cada dia que passou resgatamos nós mesmos, pouco a pouco, afloramos o que realmente éramos. Morreu um pouco do que a vida nos havia transformado, resgatamos nossa essência, nossos sonhos e muitos dos esqueletos que guardávamos trancados nos escuros armários da mente e nos mostramos inteiros, hoje somos quem sempre quisemos ser, humanos e apaixonados. Diferentes, afinal quem apostaria num romance de um Dragão com uma Deusa ? Apenas nós que somos nefelibatas e comemoramos nesta semana dois anos juntos.
Obrigado por tudo isto Deusa, por me devolver minha vida, ressuscitar muito do que tinha morrido em mim e tudo que eu largara pelo caminho. Eu tinha muita saudade de mim mesmo, você me trouxe de volta.
Parabéns para nos dois, e muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiitos anos de vida para o que sentimos.


Ps. Ana Paula, obrigado por me lembrar a palavra e pelo seu Post Triste, que me inspirou a escrever este para responder a sua pergunta. A resposta é sim, ainda existem pessoas que não tem medo de se apaixonar e isto você pode ver nos outros labirintos pessoais que são os meus links, aonde vou linkar o seu Refúgio dos Infelizes, na esperança que você não perca a fé no Amor, que é o sentimento que nos aproxima dos deuses, mas... Que dá um trabalho insano.

Para Viver Um Grande Amor
Vinicius de Moraes

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! É de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Texto extraído do livro “Para Viver Um Grande Amor”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.

sexta-feira, abril 07, 2006

Coisas Pequenas




Coisas pequenas são
coisas pequenas
são tudo o que eu te quero dar
e estas palavras são
coisas pequenas
que dizem que eu te quero amar.

Amar, amar, amar
só vale a pena
se tu quiseres confirmar
que um grande amor não é
coisa pequena
que nada é maior que amar.

E a hora
que te espreita
é só tua.
Decerto, não será
só a que resta;
a hora
que esperei a vida toda,
é esta.

E a hora
que te espreita
é derradeira.
Decerto já bateu
à tua porta.
A hora
que esperaste a vida inteira,
é agora
(Pedro Ayres Magalhães-Madredeus)

terça-feira, abril 04, 2006

No Outono




No outono colhemos os frutos do que plantamos, e este será o terceiro outono que colhi a mais saboroso dos frutos perigosos e proibidos. Creio que já na primeira mordida num abril passado, finalmente apreendi porque o amor é tão proibido, porque com ele tudo podemos, narcótico, entorpecente ele nos faz perder o sentido das coisas e ver o mundo de maneira inusitada. Ficamos amortecidos para as dores do mundo e se alguma coisa dói é a falta da pessoa amada.
O amor é proibido e castrado por quase todas as religiões, afinal quando amamos nos tornamos mais próximo dos deuses e o nosso credo é a paixão, nos entregamos ao ser amado e ao nosso destino sem duvidas ou medos, acreditamos na imortalidade da alma, pois uma vida é muito pouco tempo, quando amamos de verdade percebemos o valor da eternidade, porque depois que comemos este fruto nos sentimos realmente plenos e integrados ao universo.
Lisérgico e alucinógeno pois por mais que a nossa volta as paredes ruem envoltas em escuridão e névoa, conseguimos enxergar cores inusitadas e raras, deixando que todos os males escapem da caixa de Pandora e agarramos com força a esperança e ficamos com a esperança que podemos reconstruir tudo, que as nevoas se dissiparão e o sol voltará a brilhar. Como loucos nos agarramos a esperança, a ultima das dádivas de Zeus aos humanos, e por nossa fé e crença investimos contra os moinhos de vento até que todos os males se esvaeçam a vida retome seu curso.
Mais do que a primavera onde a natureza explode em flores e vida o outono é a recompensa pelo trabalho e a colheita do que plantamos, dos frutos que sonhamos e que tanto lançamos sementes, que muitas vezes pareceram vingar, mas que no entanto não frutificaram e feneceram a cada outono embora tivessem prometido tanto nas primaveras.
O amor colhido no outono não é temporão, mas sim o fruto colhido em seu esplendor de cor e sabor, que chega no tempo certo sem falsos fertilizantes ou implementos tóxicos, que contaminam e envenenam. Estes amores maduros colhidos no tempo certo, são a promessa de todos os que experimentam antes do tempo e que nunca nos satisfizeram. São a recompensa dos deuses, para quem perseverou no plantio e na escolha das sementes e que nunca perdeu a fé em Vênus e no seu filho Eros.
Os amores do Outono, estes sumarentos e doces frutos, trazem as lembranças da adolescência, de sítios bucólicos e frutas colhidas no pé, com sabor inesquecível como as goiabas da juventude, já que as de hoje. maiores e até mesmo mais bonitas, só trazem o enganador aroma de goiaba, porém insípidos, sonsos, sem sabor ou consistência da fruta verdadeira. Este gosto de infância e de regalo nos faz ter prazer em viver e nos rejuvenesce tanto que “venho até remoçando me pego cantando sem mais nem porquê”



Quero a vida sempre assim
Com você perto de mim
Até o apagar da velha chama
E eu que era triste
Descrente desse mundo
Ao encontrar você
Eu conheci o que é felicidade
Meu amor
(Antônio Carlos Jobim)