quarta-feira, julho 27, 2011

Hecáte


 Um grito foi tudo que ficou no ar. Um grito que a menina que colhia jacintos, deixou no ar como um aviso a sua mãe de que ela já não caminhava na luz, alguns disseram que este grito foi de terror e medo ao ver-se arrebatada pelo auriga de uma escura quadriga de corcéis negros, outros que o grito foi de horror por se ver refletida nas negras pupilas cercadas pelas Íris amarelas de seu captor, e ao ver-se assombrou-se por perceber que ela a partir daquele momento este seria o seu nome, Core, a menina dos olhos do senhor dos subterrâneos.

A loura Deméter, ao ouvir o grito o reconheceu como vindo de sua filha, mas não conseguiu perceber de que direção vinha, o que aumentou seu desespero, rasgou suas roupas e as lançou aos ventos e por onde Boreas, Zéfiro, Euro e Notos, por onde carregavam os restos da roupas da poderosa deusa, levavam a dor de uma mãe ferida, a dor de Gaia e Rea, que antes viam seus filhos aprisionados ou comidos pelo pai, a dor que revertia o cio da terra, que fazia a vegetação e as espigas morrerem e a crosta da terra endurecer-se, para que não mais as sementes a penetrem e arrebentem. A dor da mãe transformou a terra em deserto de onde a vegetação fenecia e secava. Deméter desesperada correu o mundo perguntando por sua filha e ninguém sabia onde ela poderia estar. A deusa dos dourados cabelos de trigo, vestiu se de luto azul, cobriu a cabeça e decidiu que toda a flora morreria, por sua ferida, pela sua filha desaparecida. Vestiu se de azul, caminhou nove dias e nove noites, indagou aos pássaros, aos animais e aos elementos, e nenhuma pista de sua menina. Ao Olimpo, apenas o choro nos mortais chegava, nenhuma fumaça de sacrifício, nem o cheiro da gordura, e tampouco os cânticos ou louvores, apenas as lamentações e a raiva dos humanos por tão repentino castigo, a morte da terra e de toda a criação.

Até então ninguém sabia o motivo de tanta dor, pois a boca da loura dona das espigas e do pão se fechara, e dela nem mais nenhum gemido se ouvira. De seus olhos nenhuma lagrima rolara, nem tristeza, nem revolta, apenas a determinação de que nenhum imortal recebesse nada, nenhuma oferta dos humanos, enquanto a alegria não voltasse aos seus olhos, enquanto Perséfone não voltasse a luz.

Os olímpicos se desesperavam, pois nem mesmo Zeus tinha o poder de destruir assim todas as graças de Gaia, se olhavam assustados. Que poder antigo havia sido desperto para que a Gaia ressecasse seu ventre como se ainda estivesse envolta por Urano,e  nenhum de seus filhos pudessem ter vindo a luz, e a terra morria como se dela nunca nada tivesse brotado.

Apenas uma filha dos titãs, que do submundo havia visto os ínferos se abrirem, e Hades, o invisível, sair e voltar rapidamente com sua presa e a terra novamente fechar-se silenciando o grito, e deixando penetrar a vida na terra dos mortos. Isto iniciaria uma nova era e um novo regime ao mundo, mas se ela não agisse logo o Orco receberia todos os habitantes da superfície, e nenhum reino ainda existiria na superfície da terra, e Gaia seria apenas, a cobertura do imenso reino de Dite. Hécate correu a Hélios o titã que tudo via, e pediu que ele mostrasse onde Démeter estaria com sua dor. Porem antes foi saber de Perséfone se ela sofria ou estava feliz com seu cativeiro.

Correu para a superfície e buscou Iaco, filho de Dionisio com Aura, conhecido como aquele que traz a felicidade, pois sendo salvo da mãe que pisoteava seu irmão gêmeo, por Ártemis, que engendrara o plano de Dionisio, estuprar Aura. uma de suas ninfas que a ofendera, se dizendo mais desejável que a senhora das feras e infalível flecheira. Quando esta guardou Iaco sob suas vestes, o recém nascido, ávido pela vida, grudou sua boca nos seus seios de virgem de Ártemis até que deles jorrasse o leite que o alimentou. Levado por ela a Atena, pois Aura, corria possessa pela floresta, atingindo e matando todos os animais com sua lança ou flechas. Novamente a fome de Iaco, falou mais alto, e também tirou leite dos seios pequenos e fortes da deusa da sabedoria. Assim amamentado pelo leite de duas virgens que julgavam isto impossível acontecer, darem a vida e o alimento para este pequeno deus, que por esta alegria dada a elas se tornou conhecido por trazer a felicidade.

Carregando Iaco pelas mãos tomou a forma de Baubó, um feiticeira, uma das muitas que assumia quando na superfície e correndo para a pedra onde Deméter estava imobilizada após os nove dias de busca, Hécate contou para ela o destino de sua filha, que estava feliz pelo seu novo reino e com a possibilidade de existir um novo regime, pela vida ter entrado no reino dos mortos, fazendo que a partir de então os humanos renascessem da morte, assumindo novos corpos, e buscando o conhecimento em cada vida ao invés de apodrecerem, e se dissolverem, no Hades. Apenas uma coisa agoniava Perséfone, a saudade de sua mãe Deméter, que a fazia sofrer e chorar.

A deusa dos cereais não moveu um músculo de rua face fechada, numa mascara de dor, como se fosse de pedra, moveu apenas os olhos quando soube que sua filha sofria de saudade, assim ela não daria este novo regime de morte para os humanos, eles que morressem todos de fome na terra e que seus corpos e almas se dissolvessem nas profundezas do tártaro.  

Para ela, a única coisa que queria era sua filha voltasse à luz ainda que para isto, todos os humanos morressem, e que os deuses sem culto se revoltassem contra aquele que roubou sua filha e contra aquele que permitiu que isto acontecesse, pois ainda que estes fossem crônidas como ela, apenas Deméter podia invocar o poder de Rea a mãe de todos ou de Gaia a mãe de toda criação e por nada abdicaria de seus direito de deusa e mãe, nada a tiraria dali, ainda que aquela filha dos titãs, falasse horas da regeneração das almas, que com Perséfone o reino invisível seria apenas um lugar de passagem, para a psique dos humanos, nada, mas nada mesmo a tiraria daquela pedra até que o solo se abrisse e sua filha fosse devolvida.

Porem as artimanhas da rainha das feiticeiras, não estava apenas no seu poder, de transformar a natureza e a vontade dos deuses e dos humanos, pois quando mais a dupla mãe, a De Meter, fechava sua mente para os feitiços , quando mais se endurecia como pedra, para que ela não a atingisse mais estaria exposta para a armadilha que esta havia lhe preparado, pois como filha das antigas gerações sabia que só uma coisa reverteria a situação do mundo, apenas um gesto poderia mudar tudo.

Hécate era a dona dos caminhos, dominava as encruzilhadas, sabia de todos os caminhos que os humanos precisariam passar para chegar ao seu destino, sem a dupla via da natureza humana, sendo carne e sendo espirito, nunca estes cumpririam os desígnios de Gaia. A velha bruxa sabia, que novos alimentos deveriam chegar aos humanos, a caça seria escassa, a agricultura teria que se desenvolver, os humanos deviam aprender com a reencarnação que o trigo poderia ser novamente enterrado, e que nasceria novamente, que suas sementes amassadas se tornariam o pão alimento do corpo, que Dionisio, daria aos homens o alimento do espirito, o vinho e o transe, que libertaria a mente  que desenvolveria  intrincados raciocínios. Todo o progresso humano dependeria do ato que ela faria agora, o inesperado que quebraria a resistência de Deméter, e que a cada ano Perséfone, descesse ao submundo, e que neste período, a terra morresse com ela, para que assim descansasse e se preparasse para o próximo ciclo, e que com a volta de Perséfone a vida brotaria do solo empurrada por ela, Hécate e o equilíbrio entre a superfície e a o subterrâneo ocorresse, como já havia acontecido com o céu e a terra, e entre a terra e o mar. Para que tudo isto ocorresse, Hécate/Baubó precisava criar algo totalmente novo, algo que quebrasse a resistência e que restabelecesse a ordem e foi o que fez.
Levantando a Roupa exibiu sua genitália, pintada como se fosse um rosto e os grandes lábios a Boca, que cantava musicas obscenas.



Iaco que estava mudo de terror pelo senho fechado de sua bisavó Deméter, surpreendido gargalhou, surpreendida com o riso infantil, A grande deusa, deixou escapar um sorriso, que observada por Iaco que agora ria dela Deméter, as gargalhadas, não resistiu e também gargalhou.
Ao som desta gargalhada a terra voltou a sorrir e floresceu e a partir daquele momento, o mundo mudou, e os mortos puderam voltar à vida.

segunda-feira, julho 25, 2011

A Adega


(Creio que este foi o meu primeiro conto. Escrito há muito, e burilado com o tempo.)
 
O Senhor Hunterman tinha uma casa, grande e espaçosa, ele se preocupava em organizar sua vida para o futuro. Pensava muito na sua velhice. Organizou uma biblioteca, com tudo o que já tinha lido, e comprava livros que ele gostaria de ler mais tarde, quando chegasse a idade. Em sua discoteca, com um grande volume de discos, juntava músicas que foram temas de todas as partes da sua vida. Assim como, organizou durante anos uma filmoteca, escolhendo todos os filmes que gostaria um dia de rever.

O Sr. Hunterman esperava um dia, poder sentar-se no escritório, para na velhice escrever seus livros, onde contasse sua vida e todas as coisas que lhe aconteceram, sua vida havia sido bastante rica, por isto ele capturava cada fragmento de vida ou emoção, cenas de filmes, trechos de musica, poesias e romances.

Ele levava a sério, cada prato que comia e lhe chamava a atenção em restaurantes ou viagens, ele buscava recriar em sua cozinha, buscando temperos exóticos e raras especiarias e ingredientes originais. Muitas vezes a sua casa inteira recendia, aromas maravilhosos que vinham da sua cozinha.

Para completar ele tinha a adega, onde ele guardava os vinhos que havia tomado na vida, densos, encorpados, frutados, suaves. Cada sabor, cada travo relembrava, não o ano da sua safra, mas sim o momento e a companhia com quem foram divididos. Há quem diga, que o Senhor Hunterman, afirmava poder lembrar dos beijos, a partir do sabor dos vinhos e dos pratos que havia comido com uma de suas amadas.

Porém, o que praticamente ninguém sabia é que ele, guardava mais na sua adega que qualquer um podia imaginar, lá no fundo, num canto escuro da adega, existia uma pequena porta sempre trancada com 3 cadeados, poucos a viam, e os que olhavam para ela, acreditavam que fosse um pequeno quarto de despejo, um depósito de coisas inúteis e antigas. Apenas uma mulher, uma de suas últimas namoradas, com uma imaginação acima da média, acreditou que ali era o esconderijo do barba azul, onde ele guardava, as cabeças mumificadas de suas antigas amantes, presas pelos cabelos em ganchos na parede, o seus corpos enterrados em covas rasas logo abaixo do piso.
Tanto esta mulher fez e ameaçou, desde ir embora e nunca mais voltar, como de chamar a polícia, pois sentira pelo vão da porta o cheiro de carne putrefata, que ele finalmente abriu a porta.

Assustada e ressabiada por suas próprias fantasias e já imaginando sua cabeça pendurada por seus longos cabelos loiros, ela entrou, pé ante pé. Para sua surpresa encontrou outra adega, mais limpa, menos empoeirada, melhor organizada, com prateleiras circulares, e uma poltrona e um pequeno aparador ao lado dela. De estranho mesmo apenas as garrafas, com um líquido transparente como água e estranhos rótulos escritos a mão , nomes de mulheres e datas em uma caligrafia caprichada. Todas as garrafas organizadas por ordem alfabética em cada família, colocada  por ordem de datas. E na parte inferior do rótulo, estava escrita alguma referência aos momentos. Cada uma das garrafas estava bem arrolhada e depois coberta de parafina e por fim lacrada, como se o liquido que estava guardado pudesse escapar se volatilizando pelo ar como éter. Satisfeita a sua curiosidade a mulher loira, não se preocupou muito com mais uma das esquisitices do Senhor Hunterman, tanto, que nem percebeu que havia já algumas garrafas marcadas com seu nome, Odete, escrita com caligrafia caprichada.

Odete ficou tão frustrada em suas fantasias, que não percebeu que no chão desta segunda adega, bem no centro,  próximo a poltrona com o aparador havia um alçapão. Mas todo mistério tinha se quebrado, que havia de oculto ou de interessante em uma adega dentro de outra? Incrível, mas sem a aura da barba azul, ou do feiticeiro poderoso e misterioso, o Sr. Hunterman era uma pessoa comum. Findo os mistérios, ele era apenas, um homem interessante, e que fazia sexo gostoso. Mas isto existiam vários e possivelmente muitos com mais dinheiro que ele. Assim, logo após a descoberta, começaram os desentendimentos, e pouco mais de um mês depois estavam separados. Porém, por mais que o tempo passasse crescia nela uma impressão que havia perdido o homem da sua vida, não sabia dizer por que, mas sentia como se parte de si, das suas lembranças ou da sua vida tivesse ficado com o Sr Hunterman. Para ele a vida continuou normal, depois da loira veio, a morena, a mulata clara, a ruiva, outra morena, a cada uma, ele buscava o seu par, acreditava que tinha encontrado a mulher da sua vida. Ele amou todas as mulheres que haviam passado por sua vida e de cada uma delas guardou momentos, sentimentos e um pouco da alma delas, nada que fizesse falta, apenas aquela parte que realmente amara ele. Pois, por mais que acreditasse que havia encontrado o amor que duraria por uma vida, sabia que seu destino, na velhice seria a solidão.

Por muitas vezes acreditou nas mulheres, acreditou que o amor nunca se acabaria, acreditou que houvesse o que houvesse, elas  honrariam seus juramentos e seus pactos. Para estas ele tinha o maior numero de garrafas na sua segunda adega, guardava todos os momentos felizes cada gozo, cada alegria, sorrisos cheios de promessas, palavras sussurradas ou gritadas dos momentos de amor. Praticamente toda noite ele descia para o porão da adega dentro da adega e com seus encantos e poderes insuspeitáveis, ele destilava junto com a água, todos estes momentos, os eternizando para que quando chegassem os dias de solidão.

Assim ele encararia numa boa ficar sozinho, teria, seus discos, seus livros, filmes e  lembranças felizes que ele podia beber tanto tranqüilamente, revivendo os momentos felizes ou com sofreguidão, quando o peito dói forte. Muitas vezes entre uma paixão ou outra, nos períodos de entre-safras de amores, era na sua adega que ele se refugiava. Passava por todo um ritual, cozinhava enquanto escutava musicas da época, comia acompanhado de um vinho que haviam tomado juntos, depois descia as escadas vagarosamente, carregando a garrafa do vinho. Abria a porta com cuidado, como se algumas daquelas emoções pudessem escapar e se perder pela casa, fugindo do controle e o assombrasse durante as noites frias. Entrava fecha a porta e naquele silencio subterrâneo dos túmulos, bebia pelo gargalo, os últimos goles do vinho do jantar, enquanto escolhia o momento que queria reviver. Cuidadoso, relia os rótulos, garrafa por garrafa daquela safra, escolhia o momento que necessitava, aquele que supriria a sua carência de paixão, corpo e sentidos; às vezes só pequenas caricias lhe bastavam, noutras queria tudo, com chamas e o calor que tudo consumia. Por isto a escolha criteriosa, para não, gastar nenhum destes momentos gloriosos, ou buscar um momento que não satisfaça plenamente o desejo, e se faça necessário abrir mais uma garrafa naquele dia.

Escolhida a garrafa, sentava na poltrona, rompia o lacre, retirava com cuidado a parafina, e delicadamente penetrava a rolha com a espiral de aço, e sacava a rolha. Deixava a garrafa aberta para que o pouco de alma que existia na garrafa tomasse o ambiente. Bebia as ultimas gotas da garrafa de vinho, enquanto as lembranças se espalhavam. Respirando o passado, ele colocava um pouco do conteúdo no copo, cheirava sentia o buquê entrava no tempo das lembranças, e só então bebia o primeiro gole. Ao contato do liquido com a boca, o que era lembranças e imaginação tomava corpo, e as sensações se tornavam físicas, todos os sentidos eram despertos, as palavras e vozes retornavam no timbres exatos e penetravam vivas pelos ouvidos, indo diretamente para o cérebro, trazendo para o presente, aquilo que já se tornara passado. Com as vozes vinham os aromas, os odores da respiração, o perfume, o cheiro dos cabelos, do corpo. Vinham também os sabores da saliva, do suor e em seguida das sensações táteis. E finalmente a visão. As lembranças tomavam corpo, e se transformam em realidade, como se o tempo voltasse a trás ou como se nunca houvesse passado. Naquele momento, depois do primeiro gole, o tempo deixava de existir, toda a eternidade era apenas aquele momento que se repetia, repetia até que o Sr. Hunterman perdesse os sentidos e acordasse na manhã seguinte como se tudo tivesse ocorrido noite anterior. Quando abria os olhos, percebia que tudo fora efeito da garrafa da noite anterior, aí ele recolhia o copo, as garrafas, fechava cuidadosamente a três fechaduras da porta, e subia lentamente as escadas, preocupado se seu estoque era suficiente ou se precisava de mais almas e lembranças...

segunda-feira, julho 18, 2011

Helena




Desde o seu nascimento, pairam duvidas sobre Helena, com certeza ela é filha de Zeus, mas persistem duvidas se é filha de Leda ou de Némesis. Contam às lendas que ela seria filha de Leda depois do coito com Zeus transformado em cisne, porem, outras tradição conta que Zeus desejou Némesis, que fugiu de Zeus percorrendo o mundo todo mudando de forma, afinal a Vingança tem a capacidade de se metamorfosear em qualquer coisa para atingir seu objetivo. Mas contra o rei dos deuses não foi possível, pois a cada metamorfose, Zeus a acompanhava e depois de fugir por todo o mundo, Némesis transformou-se em gansa Zeus transformou-se em Cisne e mais rápido que ela a possuiu em pleno vôo.

Indiferente de seja sua mão Helena, é filha de Zeus transformado em cisne, qual seria a razão disto, já que Zeus é geralmente identificado com o Carneiro, ou Touro ou a Serpente.
Dando uma pesquisada rápida via o Dicionário de Símbolos do Chevalier, pode ser que encontremos o porque do Cisne. Na Grécia antiga, e por toda a Europa o Cisne era a Ave imaculada, cuja a brancura o poder e a graça fazem dele uma epifania da luz, encarnando tanto a Luz Solar e masculina, como a lunar e feminina tornando o animal como um andrógino síntese de toda a luz. Mas como existem também o Sol negro, e cavalos Negros da Noite também existe o cisne negro, que continua sagrado mas carregado de um simbolismo oculto e invertido.

Outras vezes é vista como a virgem celeste a ser fecundada pela água ou pela terra, não mais a luz celeste que fecunda, mas como a luz fecundada, deixando de ser a luz celeste masculina e se tornando feminina como na hierogamia egípcia, quando o céu é fecundado pela terra.
Bachelard conclui um seu trabalho de analise de um verso de Goethe: " a imagem do cisne é hermafrodita. O cisne é feminino na contemplação das águas luminosas; masculino na ação. Para o inconsciente, a ação é um ato. Para o inconsciente, não há senão um ato". A Imagem do cisne para Bachelard se sintetiza como o Desejo, para que se fundam as duas polaridades do mundo. O canto do cisne, em consequência, pode ser interpretado como as eloqüentes juras do amante... com este termo tão fatal à exaltação que é, verdadeiramente, uma morte .amorosa. O cisne morre cantando e canta morrendo. Torna-se na realidade o símbolo do primeiro desejo que é o desejo sexual.

Imaginando, não era apenas desejo, mas era o realizador de todos os seus desejos, pois engoliu toda a criação e todos os deuses para devolvê-los em seguida, se tornando assim o pai de todos os deuses. Procuramos então qual o objetivo de Zeus ao querer uma filha humana?
De todas as aventuras de Zeus a partir de Metís (A Prudência ou no sentido pejorativo a Perfídia) antes do casamento com Hera, de onde acreditando que geraria um filho que o suplantaria, engoliu Metís, e gerou sozinho na sua mente a filha Athena. Ele gerou apenas filhos homens entre os mortais, os semideuses ou heróis, que ajudaram a criar as cidades e a eliminar monstros e tiranos que ainda haviam ficado na terra.

Por que então Zeus se transforma em Cisne, no mais primitivo dos desejos e se faz feminino para gerar Helena ?

Por que Helena era tão especial, a ponto de ter duas mães, uma a vingança dos deuses (Némesis) e outra uma rainha humana (Leda) por que existia a necessidade de Helena ser a mulher mais linda do mundo, ainda precisava nascer sendo filha do desejo? 

Creio que é neste momento que devemos imaginar o quanto Helena não comandaria o seu destino, o quanto ela nunca satisfaria os seus desejos, ela seria por vontade de Zeus uma pela de um jogo nas mãos dele, e quando por vezes ela se livrava das mãos de Zeus era utilizada por outros jogadores, é provável que em nenhuma vez Helena realizasse um de seus desejos.
A filha da luz fertilizada, a filha do desejo, nunca veria os seus realizados. A beleza e a sensualidade nascida da Necessidade (Ananké), nunca teriam o prazer de ser bonita para si mesma, ou apenas para seu amado. Esta cria do duplo feminino, nunca seria uma mulher, seria sempre a mais linda mulher do mundo, a Afrodite caminhando entre os mortais. O destino cruel de Helena é ser um objeto em eterna disputa, tanto que quando um dia aquele príncipe vindo da Ásia, chegou vestido de ouro no palácio de Menelau, ela sentiu se pela primeira vez apaixonada. Ele não a jogou nos dados como fizeram Teseu e Peritoo, nem a disputaram fazendo que a Grécia inteira temesse a destruição numa guerra entre todos os seus pretendentes. Aquele moço, que apesar de tanta realeza a encantou com seu sorriso simples dos homens do povo, e o seu olhar de desejo real, mas contido por sua timidez e respeito à Menelau, encantou Helena, pela primeira vez em sua vida, depois de dois filhos tidos na casa real da Lacedemonia, ela se sentiu mulher, e não apenas um objeto cuja posse era disputada ou mantida.

Ela não sabia que aquele inocente príncipe da Longínqua Tróia estava ali em função de que ela havia sido fruto de uma disputa entre 3 deusas, e mesmo sem saber acabou sendo um prêmio, mas pelo menos aquela vez Afrodite foi honesta, Páris não teria um objeto, teria o amor da mulher mais linda do mundo, que o amaria até fim de sua vida.

Hécuba, nas Troianas, faz questão de acusar Helena de não ter amado Páris, mas sim ter se impressionado com aquele Divo, pois era conhecido como Divo Alexandre, o seu verdadeiro nome, o seu nome de pastor. Hécuba chorando a morte de 50 filhos ataca Helena a chama de Meretriz. Priamo, em seus últimos momentos a perdoa," para mim, - Você não é a causa, só os deuses são a causa" - a culpa foi da profecia, Páris seu filho incendiaria Tróia, e combater a profecia, fez com que ela ocorresse. Expor Páris fora o seu erro, se tivesse sido criado como um príncipe e não como um pastor, não teria sido o escolhido para julgar a qual deusa entregaria o pomo. 

Mas Tróia ainda arde, enquanto Helena é acusada. Menelau, que quer matá-la por sua traição, vê seus seios semi expostos para sua espada se ajoelha e a perdoa.
Ela não pediu, esperava como sempre a vontade dos deuses, esperava o seu destino de princesa de Tróia, como a paciente Andrômaca, que vê seu pequeno filho Astíanax, o Herdeiro de Heitor ser arrancado de seus braços para deitar-se no frio leito dos seios das Queres, gritando ainda a Imponência da mulher do maior herói de Tróia:

" Pois seja assim! Arrebatai-me esta Criança,
Levai-a já de mim, lançai-a das Alturas
Se vos apraz! Fartai-vos desta carne tenra!
Os deuses Decretaram nossa perdição
E não posso impedir a morte do meu filho!..."
(Eurípides As troianas).

Espera Helena a mesma sorte, ou até mesmo uma mais cruel, de morrer pelo fio da espada, mas Aphrodite (Afrodite) ou a Aphrosyne ( insanidade, a loucura) Que tem o mesmo radical no nome e por vezes se confundem, a leva de volta para Esparta.

Onde mais uma vez o destino e os deuses a levam para onde querem, tanto para ser morta em Taurica, num sacrifício por Ifigênia, ou para ser morta por Tetis no mar por seu filho Aquiles, como a forca, morrendo entre o Céu e a terra, meio deusa, meio humana pendurada numa Arvore em Rodes, traída por sua amiga Polixo, ou atormentada pelas Erínias. Mas dizem que até hoje, as mulheres em Rodes apontam, para alguma arvores a beira de um penhasco, e dizem aquela é a arvore de Helena, num desprezo típico de quem por pura inveja da beleza, diz que o fim justo da beleza é a morte.

Zeus fez a necessidade (Ananké) e a Vingança (Némesis) gerarem a Beleza, e esta se transformou em morte, Na planície de Ilion, Aos Brados da suada e nua Ênio ( O grito de Guerra).

A necessidade se fez bela, para dar corpos para Queres, e povoar o Hades de heróis, Helena nunca foi nada, era apenas um objeto que era manipulado pelos Deuses e Homens.

terça-feira, julho 05, 2011

Vida, Amor, Rinocerontes e os Porcos-espinhos


P.Vocês sabem como os porcos espinhos fazem amor?
R. Com muito cuidado...

Tudo bem, a piada é velha, mas ilustra muito bem como é nossa vida e nos dias de hoje e o cuidado que devemos ter para construir um amor de verdade.
Atualmente, vivemos preocupados com uma série de coisas que são muito importantes para nós e estas nos estressam demais, nos tornando insensíveis para os nossos próprios sentimentos.

Corremos o diatodo, para garantir um salário, temos medo de perder o emprego, e olha que tem gente na empresa querendo nos passar a perna, ficamos horas no transito com medo de assaltos com os motoqueiros (super agressivos) disparando a milímetros de nossos retrovisores, e se por acaso um deles se enroscar e cair, logo terão 20 motoboys, nos cercando e ameaçando. Tudo isto vão minando nossa paciência, tirando nosso bom humor e como defesa temos tanto a visão de Ibsen, nos os rinocerontes, que o ser humano moderno, vai criando cascas grossas, para se tornar insensíveis aos fatores externos. Protegido por sua couraça de placas, o ser humano vai se isolando e ficando impassível ao toque de outro ser humano e indiferente ao pensamento, ao sentimento alheiro e centrado no eu.
Outras pessoas menos radicais acabam ficando como os porcos-espinhos, criando afiadas pontas em torno de si próprias, evitando a aproximação de alguém e por mais que tentem, se aproximar e relacionar-se, estão sempre machucados ou machucando aquele a quem queria amar.

Como então amar os rinocerontes, que quase cegos, investem em velocidade para qualquer sombra que vêem, atropelando tudo que está no caminho, ou como namorar um porco espinho e eles são como um punhado de longas agulhas sempre prontas e espetar e ferir.
Como na piada do inicio desta postagem, com muito cuidado. Não que antes não precisávamos cuidar e alimentar diariamente o amor, isto sempre foi necessário, já pregava Ovídio, em seu “Arte de Amar”ainda no período de Augusto. Mais recentemente, o Gabriel Garcia Marques, quando perguntado se o Amor no Tempo da Aids era mais perigoso que o “Amor nos tempos do Cólera”? e ele simplesmente respondeu – Amar sempre foi perigoso.

Assim, devemos baixar a voz quando falarmos com a pessoa amada, pois duas pessoas estressadas, podem brigar por coisas banais se não tomarem cuidado. Pode parecer trabalhoso, mas é bom sempre escolher cuidadosamente as palavras, afinal um casal são duas pessoas diferentes, com educação e criação diferentes, e uma palavra boba pra um, pode ser terrivelmente agressiva para o outro. Algo normal pode ser um tsunami incontrolável, visto por um outro. Seja econômico com as palavras, já que estas quando, como nos conta Homero, quando escapam pelo redil dos dentes, jamais voltam ao aprisco, e ninguém para uma flecha atirada ou a palavra dita. O Vinicius de Moraes era bom nisso, escutem e gravem o que ele disse: - Pra não morrer de amor. É preciso um cuidado permanente Não só com o corpo mas também com a mente, Pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - E esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia;  Doce e conciliador sem covardia;  Saber ganhar dinheiro com poesia.

Portanto, não fujam do amor na primeira derrota, e perder uma batalha não é perder a guerra, e melhor que a guerra é viver em paz. Amem, amar é a melhor parte da vida, mas cuidem da pessoa amada, como a uma flor rara, regue o suficiente, sem afogar, mas sim com um pouco a cada dia, converse fale baixo e cuidado com as palavras e com o tempo isto será automático para vocês, e quando chegar a este ponto, vocês consolidaram o amor para o restante da vida, e aí é só continuar amando, mas sempre vão precisar de cuidados.

quinta-feira, junho 23, 2011

Olho do Furacão



Há cinco noites eu não durmo, minha mente desperta, depois do sono mortal. Caminhei pelas trevas, desci ao poço mais profundo do Tártaro, vi o Tempo acorrentado, e olhei nos olhos dos Titãs presos aos grilhões. Vi o que os mortais nem imaginam em suas mais insanas fantasias.

Queimei toda a minha carne, calcinei meus ossos no magma, misturei-me as rochas ígneas e me purifiquei no Enxofre e refiz meu corpo nas chamas. Volto renascido, ainda mortal, mas finalmente invulnerável recriado no hálito de Tifon, nas profundas fornalhas de Tellus, no seu ventre, onde ela gera a vida.

Depois da longa descida, retalhando minha carne e alma em afiadas arestas de rochas, sofri dores indescritíveis morri muitas vezes morri a cada dia, como se pudesse contar os dias e noites enquanto caia no poço escuro da dor. As dores, mães de todo o sofrimento, foram uma constantes até encontrar o sol que existe dentro da terra, para nele mergulhar.

Volto renovado com o poder do bem e do mal. Mato e dou a vida, faço e curo as feridas, minhas setas espalham as pestes e minha musica pode salvar. Danço com a morte, jogo com a vida e se não posso recriar o universo, posso recriar a mim mesmo, sou um, mas sou todos, sou vocês e sou eu, em mim estamos todos nós.

Voce é capaz de dançar comigo? Você aguenta olhar nos meus olhos de sol? Eu cego, eu te mostro o seu lado negro, eu me conheço, me vi no espelho negro e nele minha luz se refletiu na negra obsidiana. Devoro Quimeras no café da manhã, almoço as Fúrias e no jantar eu sou o Dragão de Prata.

O sol brilha no meu peito e ofusca aos que querem me reconhecer, ninguém nunca me conheceu inteiro, quem me viu, viu apenas uma parte e nunca me conheceu inteiro, e agora não pode mais me conhecer.

Eu sou a loucura sã, a embriaguez sóbria, o touro e a serpente, a profundidade abissal dos oceanos, sou o amor, beleza e o lobo falcão. Sou aquele cujos olhos são multicoloridos, e não adianta me perguntar, pois te respondo com um pio cortante dos falcões...

Eu nasci no Olho do Furação

quarta-feira, junho 08, 2011

Agora somos todos Índios!!!!




MANIFESTAÇÃO CONTRA A USINA DE BEL0 MONTE,
E O NOVO CODIGO FLORESTAL E SOS XINGU
Local: Vão livre do Masp - Av. Paulista
Horário: domingo, 19 de junho de 2011 14:30

Gente! Vamos repassar e compartilhar com todos os amigos do facebook, e Você

de outras cidades e estados juntem os amigos e vão pra rua mostrar
que vocês não querem Belo Monte.
A partir de agora somos todos indios!!!!
Pintura de guerra no Rosto e o Brasil no coração, vamos todos pra rua!!!!
Sem medo de ser feliz!!!

Vem, vem pra rua vem, pela FLORESTA!

segunda-feira, junho 06, 2011

Rapsódia de Agosto em Junho



Muito mais que a mobilização, as centenas de pessoas que cortaram a Av. Paulista ontem 5 de junho, a imagem que mais me impressionou, foi a desta senhora oriental, com passos lentos no final da passeata. Ela tinha até uma dificuldade para andar mas seguia carregando um cartaz para que o Xingu fosse salvo.

No momento, veio a minha lembrança o filme Rapsódia de Agosto, com a cena da senhora muito idosa caminhando contra o vento que destruiu seu guarda chuva, mas ela não parava, não parou nem com a explosão da bomba atômica em Hiroshima, por que uma chuva a pararia?
 
O paralelo, não demorou a aparecer... Quantos hectares tinham Hiroshima e Nagasaki juntas não creio que ultrapassem o tamanho do desmatamento para o lago de Belo Monte.

Por isto quando vi aquela senhora oriental, caminhando com dificuldade sem abaixar sua placa de SOS XINGU, me emocionei e fotografei, e só não fui beijar a senhorinha, porque achei que a assustaria. Mas foi por pouco.

Por isto este post é uma homenagem a esta senhora anônima, que mostrou que não tem medo de reivindicar o melhor para seus bisnetos.

Não a Belo Monte


Veja e compartilhe este video :  http://www.youtube.com/watch?v=k24LSxxlXmg

Há muito tempo que eu não participava de uma manifestação publica, depois das diretas já tudo se tornou partidário, e deixou de me agradar, eu não serviria de massa de manobra, para lideres políticos faturarem em cima da minha presença. Claro que continuei sendo um ser político, tendo posições e votando no menos pior para aliviar minha consciência.
Hoje, senti novamente como é bom estar no meio do povo brasileiro, caminhando e cantando refrãos políticos e divertidos.  Senti-me novamente brasileiro lutando a favor do nosso país. Nesta manifestação havia apenas uma bandeira partidária, e para o meu deleite, os participantes não eram de forma nenhuma militantes políticos, era a nossa gente cansada de ver governos indo contra a vontade da população que os elegeu.
Algo novo nos brasileiro, sempre amedrontados com medo da repressão, hoje, a vontade de fazer algo por nosso país foi maior que o medo, teve novamente a coragem de sorrir e ir a luta pelo que achamos direito. Hoje começamos uma Nova Era, começamos as sair pra rua por conta própria sem o patrocínio ou a militância de nenhum partido corrupto e de interesses escusos, olhem para as fotos, olhem para o filme, vejam aquela menina parece sua sobrinha, aquela senhora sua tia, preste a atenção estamos vendo gente como a gente, sem uniformes ou bandeiras, nada de milhares de camisetas com nomes de partidos, todo mundo ali era simplesmente brasileiros como eu e você em suas roupas de domingo, agasalhados, pois fazia frio.
Em todos, olhem novamente as fotos e filme, um sorriso de vitória, de missão cumprida, de lutar por seus ideais, uns estavam lá pelos índios desalojados, outros pelos impactos ambientais da obra, outro protegendo nossa fauna, flora e cultura de nossos ancestrais, cada um tinha seu próprio motivo, não seguiam a cabeça de ninguém nem nenhuma ideologia, que não fosse a sua própria.
Estou Orgulhoso! Muito orgulhoso de cada um que esteve lá comigo, um dia ganhando ou perdendo poderemos contar aos filhos e netos, que lutamos para a qualidade de vida deles, por um mundo melhor pra eles.
 Marquem... No dia 5 de junho de 2011, iniciamos algo que aconteceu simultaneamente em vários lugares e cidades espalhadas pelo país, no dia do Meio Ambiente, começamos uma luta, que fique bem claro, começamos, é o principio de algo que pode mudar o país, que pode fazer o país mais justo e menos corrupto. Sim nós podemos, pois todo poder emana do povo e em nome dele deve ser exercido.
E o povo somos nós basta acreditar.
Obs. Na verdade este inicio que me referia é porque creio a coisa começou realmente a andar... Mas tem mais de um ano que pessoas trabalham contra esta obra

sexta-feira, junho 03, 2011

O JUÍZO DOS DEUSES 74





(Do livro Dialogo dos Deuses de Luciano de Samósata)
 
ZEUS
Hermes, toma lá esta maçã e parte para a Frígia para junto do rapaz filho de Príamo, o boieiro que apascenta o gado perto do Gárgaro, no monte Ida, e diz-lhe: “Ó Páris, Zeus ordena que, já que és formoso e entendido nos assuntos amorosos, julgues qual destas deusas é a mais bela! Que a vencedora do certame receba como prêmio esta maçã.”
(Dirigindo-se às deusas) E quanto a vocês, já é tempo de partirem para junto do vosso juiz! Eu cá me recuso a julgar, porque gosto de vós de igual forma e, se fosse possí­vel, gostaria de ver-vos a todas vencedoras. Além disso, necessariamente, ao atribuir o prêmio a uma, por certo seria odiado pelas restantes outras, por isso não é conveniente que eu seja o vosso juiz, mas sim o jovem frígio, para junto de quem vocês vão — é de estirpe real, da família de Ganimedes, e também simples e rústico!! Ninguém poderia conside­rá-lo indigno de julgar-vos.
AFRODITE
Ainda que Momo75 tivesse sido designado para arbitrar a questão, eu cá não teria receio de mostrar-me, Zeus. Que defeito poderia ele encontrar em mim? Mas é preciso que as outras também concordem.
HERA
Nós também não temos nada a recear, Afrodite, nem que o teu querido Ares fosse encarregado do arbítrio. Mas aceitamos esse Páris, seja lá quem for.
ZEUS
(Para Atena) E tu, minha filha, concordas com isso?
(Atena mostra-se envergonhada, mas ainda assim acena em sinal de consentimento) O que dizes? Estás a abanar a cabeça e a corar? É próprio de vós, donzelas, envergonha­rem-se com estas coisas! Mas ainda assim, estás a acenar afirmativamente.
(Para as restantes deusas) Agora ide, e que as vencidas não se mostrem desagradáveis para com o juiz, nem façam mal ao rapaz, pois não é possível que sejam todas igualmente belas!
HERMES
(Para as deusas) Vamos imediatamente para a Frigia! Eu vou à frente e vocês, sigam-me, sem hesitações e com confiança! Eu conheço Páris. É um belo jovem, galante e o mais capaz para julgar este tipo de assuntos! Ele não emitirá um mau juízo.
AFRODITE
Isso está tudo bem e estás a falar a meu favor, quando dizes que o juiz será justo para conosco! (Em segredo, para Her­mes) Mas ele é solteiro ou vive alguma mulher com ele?
HERMES
Não completamente solteiro, Afrodite.
AFRODITE
Como dizes?
HERMES
Parece que uma mulher do Ida vive com ele, bastante simples, por um lado, mas por outro, também terrivelmente agreste — de qualquer forma, parece que não se importa muito com ela.
Mas porque é que estás a fazer estas perguntas?
AFRODITE
Perguntei por nada em especial.
ATENA
(Em tom de censura) Então?! Tu aí, não estás a desempe­nhar bem a tua função, ao ficares ainda há pouco a falar em particular com esta (apontando Afrodite).
HERMES
Não estávamos a falar nada de mal, nem nada contra vocês, Atena! Ela só estava a perguntar-me se Páris é solteiro.
ATENA
Para que é que ela queria saber isso?
HERMES
Não sei! Diz que lhe ocorreu simplesmente e que não fez a pergunta com um propósito em especial.
ATENA
E então? Ele é solteiro?
HERMES
Não me parece.
ATENA
(Julgando por si própria) Ele tem paixão pelos assuntos da guerra, gosta da glória, ou é simplesmente um boieiro?
HERMES
Não posso dizer ao certo, mas sendo jovem, é de imaginar que tenda a alcançar essas coisas e a querer ser o primeiro na luta.
AFRODITE
(Para Hermes) Vês? Não estou a repreender-te, nem a acusar-te de falares em particular com ela! Isso são coisas de quem tem por costume queixar-se, não de Afrodite.
HERMES
Ela estava a perguntar-me praticamente o mesmo que tu! Assim não tens que preocupar-te, nem que considerar-te menos favorecida, se eu lhe responder com a mesma since­ridade do que a ti.
(Olhando para o caminho) Mas enquanto estávamos aqui à conversa, já nos afastamos muito dos astros e estamos quase na Frígia. Ora eu estou a ver perfeitamente, se não me engano, o Ida e o Gárgaro por inteiro e também o vosso juiz em pessoa, Páris.
HERA
(Tentando a todo o custo visualizar) Onde está? Não estou a vê-lo.
HERMES
Olha aqui do lado esquerdo, Hera, não para cima do monte, mas na encosta, onde está a caverna, ali onde se encontra a manada.
HERA
Mas eu não estou a ver a manada.
HERMES
O que é que estás a dizer? (Apontando) Não vês uns boizinhos aqui na direção do meu dedo, a saírem de entre as rochas e um indivíduo a descer do cimo de uma rocha, a se­gurar um cajado e a impedir que a manada se disperse para longe?
HERA
Agora já estou a ver, se é que é mesmo ele.
HERMES
É ele, sim. Uma vez que já estamos perto, se acharem bem, descemos à Terra e vamos a caminhar, para não o assustar­mos ao descer subitamente do céu.
HERA
Tens razão. Assim faremos. (Descem das alturas)
(Ironicamente, para Afrodite) Agora que já chegámos, está na hora de tu, Afrodite, ires à frente e de nos indicares o caminho. Naturalmente, tu estás uma perita, já que, se­gundo se diz, desces muitas vezes à Terra, para encontrares Anquises.
AFRODITE
Não me incomodas muito com os teus sarcasmos, Hera.
HERMES
(Continuando a caminhada) Pois eu é que vou guiar-vos ! Na verdade, também eu já estive no Ida, na época em que Zeus se apaixonou pelo rapaz frígio. Vim aqui muitas vezes enviado por ele para vigiar o jovem, e quando se transformou em águia, voei juntamente com ele, e ajudei-o a transportar o garboso rapaz. (Apontando para um rochedo) Se bem me lembro, foi a partir daqui, desta pedra, que o levou para cima! Ele encontrava-se então a tocar flauta junto do rebanho! Zeus aproximou-se dele pela retaguarda, com facilidade rodeou-o completamente com as garras e segurando-o com o bico pelo chapéu preso á cabeça, ergueu o rapaz que, espantado e com o pescoço revirado, olhava para ele. Então, segurando a flauta, - pois ele tinha-a perdido com o medo - eu... (Chegando junto de Páris) ora eis-nos aqui perto do vosso juiz! Pois então       acerquemo-nos dele!
(Dirigindo-se a Páris) Saudinha, pastor!
PÁRIS
(Admirado) Para ti também, jovem! Mas por que motivo é que vieste até aqui, a estes domínios? E quem são essas mulheres que estás a conduzir? Elas não devem ter o costume de percorrer as montanhas, de tal maneira são belas.
HERMES
Todavia não são mulheres, Páris! Estás a ver Hera, Atena, Afrodite e a mim, Hermes, enviado por Zeus.
(Páris fica estupefato) Mas porque é que estás a tremer e a ficar pálido? Não tenhas receio! Não é nada de mal. Ele ordena que tu sejas o árbitro da beleza delas. Já que é belo, diz ele, e entendido no amor, lego em ti a decisão e logo que tenhas lido a inscrição na maçã ficarás a conhecer o prêmio da contenda.
PÁRIS
(Com um gesto, pede a maçã a Hermes, que lha entrega) Deixa cá ver o que é que ele quer. Diz “Que a mais formosa me possua.”
Mas agora, ó senhor Hermes, como poderei eu, um mortal e um rústico ser juiz de um espetáculo tão incrível e superior a um boieiro? É que tomar essas decisões é algo mais próprio de efeminados e de indivíduos da cidade. Eu cá, de acordo com o meu ofício, poderia rapidamente decidir entre uma cabra e outra cabra, uma bezerra e outra, qual a mais bela. (Apontando para as deusas) Porém elas são todas igualmente belas e não sei como poderia retirar a vista de uma e transferi-la para outra! Ela não quer afastar-se com facilidade. Fixa-se na primeira, renuncia a tudo e aprova o que está á sua frente! E se transita para outra, acha-a bela, encanta-se e fica também cativada pelas outras que estão próximas e, em suma, a beleza delas espalhou-se á minha volta, tomou-me por inteiro e sofro por não conseguir, á semelhança de Argos, ser capaz de ver por meio de todas as partes do meu corpo.
Parece-me que efetuarei um bom julgamento se der a maçã a todas. Ainda por cima, acontece que aquela é irmã e esposa de Zeus, e as outras, suas filhas ! Então assim como é que não há-de ser difícil a decisão?
HERMES
Não sei, mas não é possível fugir ao que Zeus ordena.
PÁRIS
Ó Hermes, ao menos as convence disto: que as duas que forem vencidas não fiquem com ressentimentos contra mim, mas que considerem que a culpa é apenas dos meus olhos.
HERMES
(Depois de lhes lançar um olhar inquisidor e de obter uma resposta positiva) Dizem que assim farão!
E agora já é tempo de chegares a um juízo!
PÁRIS
(Com resignação) Hei-de chegar! O que é que me resta?!
Mas antes quero saber uma coisa: acaso será suficiente olhar para elas, tal como estão, ou será conveniente des­pirem-se para uma análise mais minuciosa?
HERMES
Isso pode ficar dependente do teu critério. Ordena como te aprouver.
HERMES
(Para as deusas) Vocês, dispam-se! (Para Páris) E tu, observa!
Eu cá vou desviar o meu olhar.
HERA
Com certeza, Páris! E eu vou ser a primeira a despir-me, para que te apercebas que não tenho apenas os braços alvos e que não me orgulho apenas em ser a dos olhos grandes76, porque em cada um dos meus membros, eu sou igualmente bela.
PÁRIS
Despe-te também, Afrodite!
ATENA
Páris, ela que não se dispa antes de largar o seu cinto77, pois é uma feiticeira! Não vá ela ludibriar-te com ele. Para além do mais, não devia apresentar-se assim toda adornada, nem enfeitada com essas pinturas, como uma cortesã qual­quer, mas sim mostrar a sua beleza natural.
PÁRIS
(Visivelmente satisfeito) Ordeno como me aprouver? Quero vê-las nuas.
PÁRIS
(Para Afrodite) Elas têm razão no que toca ao teu cinto, por isso, larga-o!
AFRODITE
Ó Atena, então e porque é que tu não largas o capacete e mostras a cabeça sem nada, em vez de agitares o penacho e aterrorizares o juiz? Ou temes envergonhar-te por a cor dos teus olhos poder ser notada sem o aparatoso capacete?
ATENA
Então olha, já tirei o capacete.
AFRODITE
Olha, e eu o cinto.
HERA
Então dispamo-nos!
PÁRIS
(Absolutamente maravilhado com o espetáculo) Ó Zeus prodigioso, que espetáculo, que beleza, que satisfação! (Olhando Atena) Que donzela esta... (Contemplando Hera) como resplandece aquela de nobreza e magnificência, verdadeiramente digna de Zeus... (Admirando Afrodite) e o doce olhar, o sorriso elegante e atraente daquela!
Mas chega de felicidade! Pois se acharem bem, gostaria de examinar cada uma em particular, já que agora estou confuso e não sei para o que olhar, distraída que está a atenção da vista em todas as direções.
AFRODITE
Façamos assim.
PÁRIS
Agora saiam vocês as duas! E tu, Hera, fica.
HERA
Fico, e quando tiveres acabado de apreciar-me com rigor, terá chegado a hora de tu veres se te parecem belos os pre­sentes em troca do teu voto em mim! Pois se me considerares a mais bela, Páris, serás senhor de toda a Ásia.
PÁRIS
(Irritado) Os meus juízos não dependem de presentes. Agora sai! Eu decidirei como achar justo.
(Para Atena) E tu, Atena, aproxima-te!
ATENA
Já aqui estou na tua presença, Páris, e, se me considerares a mais bela, nunca sairás vencido de uma luta, mas sempre vencedor! Tornar-te-ei um guerreiro e um conquistador.
PÁRIS
(Irritado) Não preciso de guerra nem de luta, Atena! Como vês, a paz impera agora na Frigia e na Lídia e além disso, o reino do meu pai vive em paz. Mas tem confiança, pois não serás prejudicada, uma vez que não tomarei a minha decisão baseado nos presentes ! Podes vestir-te e colocar o capacete! Já vi o suficiente. Chegou a vez de Afrodite se apresentar.
AFRODITE
Aqui estou, perto de ti, vê pormenorizadamente e não tenhas pressa. Detém-te em cada um dos membros. E se quiseres, bonito rapaz, escuta o que vou dizer-te. Tendo-te eu visto já há muito tempo, jovem e belo, de um tipo que não sei se a Frigia criou outro igual, acho-te feliz com a tua beleza, mas repreendo-te por não abandonares os rochedos e essas pedras aí, para viver na cidade, em vez de desper­diçares a beleza na solidão. Que partido é que tu podes tirar das montanhas? E que proveito poderão tirar as vacas da tua beleza? Já devias ter-te casado, certamente não com alguém rude e campestre, como as mulheres das redondezas, mas com uma rapariga da Hélade, de Argos ou de Corinto ou então de Esparta, como Helena, uma jovem, bela, seme­lhante a mim, e sobretudo apaixonada! Só de ver-te, eu estou certa de que largaria tudo, entregar-se-ia a ti, seguir-te-ia e iria viver contigo. Mas certamente tu já terás ouvido algo acerca dela.
PÁRIS
Absolutamente nada, Afrodite! Mas agora gostaria de ouvir-te.
AFRODITE
Ela é filha de Leda, aquela mulher bela, para junto de quem Zeus voou, transformado em cisne.
PÁRIS
E como é que é de aparência?
AFRODITE
Por um lado, é branca, como seria de esperar ao ter nas­cido de um cisne, por outro, delicada, já que foi gerada dentro de um ovo, expedita em muitas coisas, hábil na palestra e de tal modo admirada, que se travou uma guerra por causa dela, quando roubada em criança por Teseu. Assim que atingiu a flor da idade, todos os mais valorosos dos Aqueus pretendiam a sua mão em casamento, mas o escolhido foi Menelau, da família dos Pelópidas! Se quiseres, eu farei com que ela seja a tua esposa.
PÁRIS
O que é que estás a dizer? Uma mulher casada?!
AFRODITE
Tu és jovem e ingênuo, mas eu sei o que é preciso fazer nessas circunstancias.
PÁRIS
O quê? Eu também quero saber.
AFRODITE
Tu vais fazer uma viagem como se fosse para contemplar o ambiente da Grécia. Quando chegares à Lacedemónia, Helena ver-te-á, e depois o trabalho difícil — como ficar apaixonada e deixar-se levar por ti — será meu.
PÁRIS
É isto que me parece inverossímil: abandonar o marido, e querer embarcar com um bárbaro, um estrangeiro.
AFRODITE
Tem confiança! Eu tenho dois belos filhos, Hímero78 e Eros: esses eu quero confiar-los para que sejam teus guias no caminho ! Por um lado, Eros apoderar-se-á dela por com­pleto e obrigará a mulher a apaixonar-se por ti. Hímero, por outro lado, envolvendo-te, conseguirá tornar-te semelhante a ele, atraente e gracioso. Eu própria ajudar-te-ei, estando presente, e pedirei às Graças79 que me acompanhem, para que todos juntos consigamos persuadi-la.
PÁRIS
Como isto vai acabar não sei, Afrodite! O que sei é que estou apaixonado por Helena. Sem como nem porquê, já me imagino a vê-la, a navegar para a Grécia, a chegar a Esparta, a regressar na companhia dessa mulher. Sofro por não estar já a concretizar tudo isso.
AFRODITE
Páris, não comeces a apaixonar-te, antes de recompen­sares a casamenteira e madrinha de casamento com a tua decisão favorável!
Convém que eu vos acompanhe vitoriosa e que festejemos simultaneamente os esponsais e a vitória! E tudo isto está ao teu alcance - o amor, a beleza, o casa­mento, todas estas coisas em troca de uma maçã.
PÁRIS
Temo que te esqueças de mim depois de tomada a de­cisão.
AFRODITE
Acaso pretendes que jure?
PÁRIS
De modo nenhum, mas faz de novo a promessa!
AFRODITE
Prometo-te, neste momento, entregar-te Helena como esposa e que ela irá acompanhar-te, irá para a tua casa em Ílion e eu própria estarei junto e prestarei a minha ajuda em tudo.
PÁRIS
E trarás Eros, Hímero e as Graças?
AFRODITE
Sossega, e hei-de trazer também Poto80 e Himeneu81.
PÁRIS
Assim sendo, por este motivo, dou-lhe a Maçã. Assim sendo, por esse motivo, dou-te a maçã – toma-a!










74 Este diálogo retrata, em discurso direto, um episódio a que muitos autores aludem ou sintetizam nas suas obras. Trata-se do relato de um concurso de beleza que, de certo modo, estaria na origem da Guerra de Tróia, que opôs, durante dez anos, Gregos e Troianos.
Quando Tétis e Peleu se casaram, convidaram para o banquete todos os deuses, á exceção de Éris, a Discórdia. Sentida pelo facto, enviou uma maçã de ouro, que deveria ser entregue á mais bela. Desde logo se apresentaram Hera, Afrodite e Atena. Ninguém mentor para decidir a contenda do que Zeus. Este, todavia, encontrava-se numa situação delicada a de escolher entre a esposa e duas das suas filhas.
Como tal, decide enviar Hermes a um jovem pastor, abandonado pelos pais, o rei de Tróia (Príamo) e Hécuba, e que se encontrava no monte Ida. As tres deusas apresentaram-se então perante ele e evidenciaram os seus melhores atributos. Nenhuns, porém, conseguiram ultrapassar os da bela Afrodite que prometeu a formosa Helena, casada com o grego Menelau, ao troiano Páris.
75 A personificação do Sarcasmo
76 A de braços alvos e de olhos grandes eram duas formas de retratar Hera (epítetos).
77 Cestus, o célebre cinto de Vénus.
78 Personificação do desejo amoroso.
79 As Graças ou Cárites eram divindades da Beleza.
80 Desejo amoroso.
81 Deus que preside os cortejos nupciais