sexta-feira, janeiro 06, 2012

A Distancia é o esquecimento*



*Conselho do Dr. Publius Ovidius Naso em seu livro Remédios do Amor

Embora você se sinta preso por fortes correntes, você precisa ir embora, embarcar em uma longa viagem. Você vai chorar e virá a sua mente o nome da amada e muitas vezes você vai parar no meio do caminho. Mas é preciso que você saiba que deve continuar, manter isto na mente, perseverar e por força nos pés e até correr para alcançar seu objetivo. A chuva e os pedidos para que fiques não devem te retardar, nenhuma festa no sábado, nem despedida dos amigos. Não se atrase nem finja doença para ficar perto de seu objeto de desejo.

Não se pergunte quantos quilômetros deve andar, mas sim, quantos você já percorreu, para distanciar-se do amor. Não conte os dias nem olhe continuamente para trás, esqueça Roma, pois lá tudo te lembra ela, entregue-se a fuga, pois não foge de um inimigo mas sim da dor e da esperança infundada. Embora meu conselho te pareça cruel, eu confesso, são sim severos, mas para curar-se terá que suportar a dor da perda. Muitas vezes doente, eu bebia, embora o suco amargo das uvas ter sido negado a minha mesa quando solicitado. 

Para salvar o seu corpo e espírito e não enlouquecer deve suportar a ferro e fogo, a sede de voltar. Molhe sua boca com água e siga em frente. Para recuperar a saúde em sua mente, você deve suportar tudo. O coração é a parte mais importante de seu corpo, você não viverá com ele despedaçado.

No entanto o inicio desta terapia é o mais difícil, é o período mais amargo, e deve se esforçar para ultrapassar esta fase inicial. Veja como os bezerros novos se incomodam com o Jugo, ou quanto o freio perturba o cavalo novo. Mas breve os bezerros aceitarão o jugo e os cavalos correrão velozes sem se preocupar com o freio. Você pode estar triste ir longe de Roma, mas, no entanto, você vai voltar um dia, a terra vai te trazer de volta. Não deixe que o amor te faça sentir com um covarde e não volte antes de estar curado.

Depois que estiver no caminho, a própria estradas e os campos lhe trarão conforto, novas amigas aparecerão, mas não penses que está curado ou volte antes da hora. A cura é demorada, a distancia e o tempo devagar apagarão a chama de seus sentimentos e as brasas se tornarão cinzas mortas, sem fogo. Quando isto acontecer, divirta-se conheça novas mulheres, apaixone-se crie novos laços, pois Eros é cruel e vingativo e se rebelará em armas, caso você volte com sede e fome, toda a sua ausência terá sido inútil e seu esforço minado.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Aquele Azul


* foto tirada com celular sem filtros nem Photoshop

Às Vezes a Natureza se mostra tão descaradamente linda na sua frente, que se você não fotografar, ela se recente e a beleza se esvai... Dizia eu para a Jane, minha aluna de “Olhar Fotográfico” quando ela comentava que ficou admirada com o numero de elogios que recebeu, por umas fotos de nuvens, que ela fez da janela do seu apartamento.

É admirável, perceber que ensinando nós passamos o conhecimento, mas para fazer isto corretamente precisamos aprender como passar coisas intangíveis. Como explicar aquela luz de fim de tarde, quase noite, em que o céu fica com um azul Royal profundo, e que dura apenas poucos minutos? Precisamos apreender de novo, lembrar quando vimos pela primeira vez esta luz, lembrar de cada sensação e de cada foto que tiramos neste momento. Recordar as emoções que aquele azul te fez sentir. Lembrar o cheiro do azul, do gosto, o som daquela cor e o reflexo daquele azul caído sobre a sua pele. 

É claro, que ela não sentiria aquele azul da mesma forma que eu. Eu conheço este azul há muitos anos, e ela esta conhecendo agora. Eu Fotografava, tinha que esperar terminar o filme, sim, porque você olhava muito mais e só fotografava o melhor, estudávamos o ângulo antes de clicar, passeávamos em torno do assunto, descobríamos a sua plasticidade e só então clicávamos, filmes e revelações eram caros, nós tínhamos que ver a foto revelada, antes de levantar a câmara e ajustarmos o foco, clicava muito menos, mas tirávamos fotos melhores, com o filme terminado, precisávamos terminar a viagem, voltar pra casa, levar o filme no laboratório, esperar alguns dias, para que ficassem prontas, não existia revelação em uma hora. Quando finalmente o envelope com as fotos estava na sua mão é que você via o resultado, se a foto saiu como você queria, era a maior alegria, algo te inundava o coração, tínhamos orgulho da nossa foto.

Hoje, com as câmaras digitais estas coisas todas se perderam... Clicam, clicam e clicam e depois apagam todas que não prestam por isto que as pessoas estão perdendo o Olhar Fotográfico.

E com todas estas facilidades de hoje, estamos perdendo também nossa maneira de sentir outras coisas e trabalhar com nossos sentidos, antes guardávamos telefones na cabeça, hoje nossas memórias estão guardadas no celular... E assim em tantas coisas que vivemos se perdem quando o HD do computador pifa.

Esta dificuldade de passar conhecimento, que falei no principio, começa a ocorrer em todas as áreas, veja que em qualquer estabelecimento comercial a contas, Mesmo as mais simples são feitas com calculadora, nem mais a tabuada ou somas como R$4,25 + R$4,25 ou seja dois maços de cigarros , são feitas nas calculadora, já que as pessoas perderam a capacidade de somar.

Na verdade o que eu queria dizer quando comecei este post é que não olhamos mais para o que a natureza nos mostra e em consequência disso, não olhamos de verdade nem para a pessoa que está ao nosso lado. Estamos nos individualizando cada vez mais, nos preocupando apenas com nós mesmos, e quando vamos ensinar ou explicar algo para alguém, fazemos com o que conhecemos, como se esta fosse uma verdade absoluta. Não nos importa se a pessoa compreendeu ou não. 

E é isto que está se transformando nossas vidas, não vemos mais as outras pessoas como víamos antigamente. Antes as observávamos buscando entender o que ela sentia e pensava. Hoje na maioria das vezes vejo que as pessoas só se importam com o que vêem e sentem, o outro é como uma foto numa câmara digital, se não gostamos de algo os deletamos.
Esquecemos do azul, esquecemos do encantamento, perdemos a paciência de esperar o dia seguir seu curso até que o céu se transforme. Queremos agora, temos pressa para tudo e o mesmo acontece com as pessoas que conhecemos, não temos paciência para esperar que ela se mostre, nem tempo para que o amor aconteça tudo deve vir pronto, instantaneamente.
Assim vamos perdendo o sentido da visão, hoje na paquera, poucos se olham, os rapazes vão agarrando as moças pelo braço e partindo para o beijo, outra vez como numa câmara digital, varias podem dizer não, mas serão tantas tentativas e as maquinas são tão automáticas que alguma foto sairá boa, como alguma garota ou varias aceitarão o beijo, pois o fenômeno não é só masculino, mas sim humano. Todos estamos perdendo nossa humanidade, nossa sensibilidade. Até onde vamos com isto? Sei lá, mas espero que acordemos logo deste sonho tecnológico, que tudo deve ser mais rápido, produtivo e que não podemos perder tempo.
Mas eu ainda gosto de olhar, dar voltas em torno do assunto, observar ângulos e facetas e esperar o momento de gloria da natureza eu prefiro esperar aquele azul, prefiro o encantamento que a pressa.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

A solidão.



Sempre temi a solidão e todos que me conhecem um pouco, sabem. Podem não saber a razão, podem não entender o que eu tanto temia, mas sempre souberam que a solidão sempre me deu pavor. Não se trata apenas ficar sozinho, pois por muitas vezes exercitava a solidão viajando, ou ficando trancado no quarto por dias.

O que me apavorava era a solidão compulsória, aquela que você não escolheu e em uma situação da qual você não pode se livrar... Vários fatores me levaram a isto e mesmo odiando estar só, preferi fechar todas as portas e janelas do labirinto e me sentar em meu trono no escuro centro do labirinto, rever minha vida inteira, reconhecer meus erros e não poder voltar no tempo. Portanto, tinha que apreender seguir em frente.

Outra das coisas apavorantes da solidão é não ter ninguém por perto para esconder a minha loucura, sim escondemos nossas loucuras particulares sob mascaras sociais e na solidão esta necessidade se esvai e corremos o risco de enlouquecer irremediavelmente.

Este período em que passei quase que 100% sozinho, causaram uma série de mudanças inclusive fisiológicas, passei a comer quando tinha fome e a dormir quando tinha sono, isto me levou a passar dias comendo apenas uma vez por dia, ter picos de sono de 3 horas ficando muito tempo sem dormir causando alguns estados alterados de consciência e despertando algumas áreas da mente que eu desconhecia, voltaram algumas coisas e maneiras que eu tinha esquecido completamente serem minhas. A intuição foi ampliada passei a perceber coisas que não percebia e meus instintos e sentidos ficaram mais aguçados como se um animal adormecido despertasse depois de longo sono. Fiquei mais sensorial e menos intelectual. Com isto a escrita foi bloqueada e para manter uma aparência de normalidade para os que me conheciam, passei a simplesmente compartilhar mensagens nas redes sociais, ao invés de escrevê-las como sempre fazia. Eventualmente durante a sonolência causada pela falta de sono surgiam algumas idéias e pensamentos que eu anotava de qualquer jeito, e depois eu as editava e publicava, mas isto era raro.

Em muitos dias as únicas palavras que eu dizia era: “Não, obrigado”, quando me perguntavam no mercado se queria o CPF na nota fiscal ou “ dois lucky’s vermelhos” para o dono do bar da esquina. Enquanto caminhava ou andava de bicicleta, coisa que faço todos os dias, geralmente não pensava em nada, preferindo curtir o calor do sol na pele, o vento levando os meus cabelos ou o frio da noite eriçando meus pelos.

Em casa, no meu labirinto por muitas vezes urrei de dor, por muitas vezes me senti esquecido pelo mundo, porque ao invés de seguir a corrente como todos fazem, nadei contra ela em busca dos meus princípios, fui à busca da minha fonte, minha nascente, busquei nos deuses meus arquétipos e os mitos, que nunca me abandonaram, e aprendi com eles. Percebi que cada momento da minha vida que me empurrou a este ponto, um mito me explicava o acontecido. Meus amigos, ou aqueles que eu julgava amigos, não entendiam a minha obsessão pela dor, em me estraçalhar em mil partes para poder depois me reconstruir, para eles era mais fácil mentir que nada havia ocorrido e viver o presente, mas o presente é uma falácia para justificar os próprios erros, enganar a si próprio. È no passado que devemos buscar o futuro, já que o presente é apenas um átimo de tempo, que em segundos já se torna passado.
Estou voltando de uma viagem prevista na apresentação deste blog escrita há oito anos, profeticamente escrita antes de tudo acontecer “Percorrendo os meandros viscerais até o âmago do ser humano, o inferno da mente. E dali retornar um novo ser, sem mais nenhum medo, vencendo as trevas da ignorância".
Volto triste, com uma tristeza absurda por finalmente ver as coisas como elas realmente são, sem véus sem nada que atrapalhe a visão, volto sem esperança e precisando de novos sonhos, mas volto inteiro e renovado.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Infandum Regina iubes renovarem dolorem.



Ordena-me Rainha que renove dores indizíveis.  Assim respondeu Enéas para a Rainha Dido, que lhe pede que conte o fim de Tróia. Sabendo que seria doloroso, ainda assim, Enéas se dispõe a contar, pois sabia que apesar de todas as suas perdas e dor, ele Sabia que não poderia esquecer. Enéas não era apenas uma testemunha, ele participara da defesa de Tróia e viveu seu fim, esquecer, seria acreditar que nada valeu à pena, que não aprendeu com o ocorrido, que muros inexpugnáveis, poderiam cai por astúcia e que um traidor valeria mais que os mil navios carregados de gregos. Aprendera muito com a lição que lhe rasgaram a pele.

Não, o que ele passou não podia ser esquecido, por maior dor que lembrar lhe trazia, ele tinha que contar, pois as dores só existem no passado.  E a Gloria de ter estado na defesa de Tróia, lutado ao lado de tantos guerreiros que caíram ao golpe do destino, não podia ser esquecida.
Ele precisava lembrar, pois mais que a dor o dilacerasse, Tróia nunca poderia ser esquecida e apagada da memória do mundo. Na Cidade de Ilion ele havia feito seu nome como guerreiro, lá criara sua Aretê, sua fama e sua honra. Não importava mais sua dor, pois esta já fora chorada demais e o que contaria era a glória de ter sobrevivido, mesmo estando do lado da morte por tantas vezes. Enéas respirou fundo secou a furtiva lagrima que ameaçava correr por seu rosto e finalmente falou a rainha de Cartago:

Se é de seu gosto, ouvir a nossa tragédia e saber sobre o fim de Tróia, esquecerei toda a dor e a repulsa das lembranças, esquecerei todo o horror que vivi, e farei a sua vontade, contarei tudo o que queria esquecer, pela glória dos que morreram.

É isto que acontece com todos os contadores de história, precisam esquecer suas dores, costurarem seus peitos dilacerados e relembrar com certo distanciamento, tudo o que viveu. Pois só seremos honestos com nossa história, se sufocamos a dor e a raiva e a escrevemos como simples narradores, não esquecendo nenhum detalhe, não mais com dor, nem usando nosso sangue como tinta.

Durante boa parte deste ano, pouco escrevi de novidade aqui nas paredes do Labirinto, reciclei textos antigos e inéditos, pois foi para mim um ano difícil e dolorido, não quis de forma alguma dividir minhas dores, já que eram intimas e faziam parte do meu destino. Agora passadas as lagrimas e com as dores aliviadas, volto a falar sobre do muito que passou pela minha cabeça e de algumas coisas que realmente aconteceram... 

Mas, tenham certeza nunca direi o que é real e o que foi só pensamento, pois quem escuta uma história se importa apenas com a história, a verdade nunca foi enredo.

quarta-feira, agosto 24, 2011

Jogando Xadrez com a Morte (Conto inacabado)



Há mais ou menos um ano ela apareceu por aqui, demorei um tempo pra perceber quem era. Se esgueirando pelas sombras da casa ela desaparecia por completo, deixando um cheiro suave de dama da noite. Aí passei a persegui-la, afinal, se ela estava zanzando pela minha casa não era sem motivo. Passei andar a noite pela casa, com todas as luzes apagadas para evitar as sombras e diferenças de luz, onde ela se escondia. Eu sabia que ela me evitava, nunca entrava no meu quarto, mas rondava entrava e por vezes se acomodava junto à cabeceira da minha mãe e se fundia no espaldar escuro. Brincamos de gato e rato, por algum tempo, até que um dia eu indo do quarto para a cozinha, andando no corredor escuro dei de cara com ela e nossos olhos se cruzaram, e aprendi que quando olhamos a Morte nos olhos ela se paralisa, ficando imóvel. Deve ser porque todos evitam olhá-la nos olhos. Me surpreendi, não por encará-la olhos nos olhos, mas porque seus olhos eram algo que eu nunca teria imaginado. Escuros e profundos eles me levaram ao tempo antes do Tempo, quando Nix reinava sobre o universo estendendo seu manto negro sobre tudo. A morte já existia antes da vida, e percebi isto nos lampejos cintilantes, que vinha do fundo da suas íris. Por um momento, envolvido por estes pensamentos sobre o principio dos tempos, fechei os olhos imaginando e retendo em mim esta miragem viagem e ela escapuliu.
Quando a encontrei novamente, não a encarei mais, e ao invés disso lhe perguntei:
 – O que Senhora faz na minha casa? O fio de Laquesis de alguém está para terminar?
– Não, mas sua mãe quer ir antes da hora, e ela quer isto com tanta intensidade, que nenhum Deus, pode fazer nada contra a vontade dela. Não estou aqui para levá-la, a menos que ela faça uma besteira, aí preciso estar por perto. Sempre que alguém caminha na linha entre a vida e a morte, uma de nós precisa estar por perto, para que não se rompa o equilíbrio.
Duas semanas depois desta conversa, um improvável câncer de seio, foi diagnosticado na minha mãe, que aos 81 anos tinha pouquíssimas possibilidades de desenvolver um tumor deste tipo. Correria, diagnósticos exames de corpo inteiro revelaram que só existia este tumor no seio, nenhuma metástase, nenhuma complicação.
Sem me estender mais neste ponto, digo para vocês que foi um mês de correrias na preparação da cirurgia, que ela não colaborava, passando os dias na cama, forçando os pulmões e o coração, o que dificultava uma anestesia para a cirurgia, mas enfim, com a ajuda do cardiologista, a deixamos pronta para a cirurgia em que o tumor foi removido, e foi só Isto, com a remoção do tumor, eliminou-se qualquer possibilidade de sequela.
Mas ainda assim, a incômoda presença, ainda passeava pela minha casa. E minha mãe, quando finalmente aceitou que não a estávamos enganando, escondendo um sombrio diagnóstico, foi novamente perdendo o brilho e a alegria e se refugiando no quarto, e passando os dias deitada, afinal ela agora sabia que isto forçava o coração.
Seu estado físico se deteriorava dia a dia e quando chegamos ao fim do ano parecia realmente o começo do fim. Sai de férias, mandando minha mãe para casa de um irmão, fui para a serra fugir do mundo e problemas. Quando regressei no dia 3 de janeiro, minha mãe foi devolvida num estado lastimável, não andava, quase não falava, e não segurava nenhuma de suas necessidades fisiológicas. Começou um período, que parei completamente o trabalho, a crise do meu casamento, chegou ao ponto máximo, tanto que antes do final do mês, eu estava separado e minha mãe catatônica na cama sem reconhecer nenhuma pessoa.
Nas primeiras noites, insones por falta da amada na cama e despertado por qualquer barulho no quarto ao lado, virei outro ser noturno que andava arrastando correntes pela casa. E muitas vezes cruzei com a emissária das moiras pela casa, fazendo apenas um cumprimento com a cabeça, que ela sempre correspondeu. Éramos dois fantasmas noturnos, ela que nunca dormia e eu sonolento por falta de sono, ela foi ficando de casa, por vezes a encontrei na área de serviço observando a lua ou mesmo na banheira, com água quente imaginária, se banhando em sonhos. E foi exatamente por isto, que voltamos a nos falar. Uma noite, após nos cruzamos várias vezes, perguntei:
     – Desculpe minha curiosidade, mas você já viveu como humana?
     – Não, porque a pergunta?
 – Reconheço em você algumas características humanas, como olhar para os céus a procura de algo, ou estar dentro de uma banheira vazia com vapores inexistentes.
 – Desde quando vocês passaram a existir que passo para recolher suas almas, e muitos de vocês na busca de alguns segundos a mais de vida insistem em conversar comigo, e contar seus planos que eu não deveria interromper. E aí fui apreendendo com vocês o que acreditam ser a vida. Isto foi por causa de Sísifo, que me enganou 3 vezes, aprendi a conhecer melhor as mentiras dos humanos, assim nunca mais nenhum de vocês me enganou.
 – E se eu encher uma banheira com água quente de verdade, você conseguiria aproveitar?
 – Filho de Dionísio, você sabe que nós deuses podemos ter corpo, além deste fluido e etéreo que você está vendo, e ainda a nossa real aparência, que vocês nunca realmente verão.
E eu fiz isto preparei uma banheira quente, com essência de dama da noite, algumas flores de gerânio e anilina azul clara para parecer a água da antiga Grécia, acendi algumas velas e a chamei para o banho. Ela se despiu dos panos escuros que envolviam o seu corpo, revelando um corpo com belas formas harmoniosas. Quando fui comentar alguma coisa, ela falou.
– Antes dos olímpicos, minha forma era outra, mas a partir dos ideais de Zeus, assumi esta forma, o que também é mais confortável, para aparecer aos moribundos. As outras formas grotescas que os humanos me retratam, são todas criadas pelo horror que vocês tem de mim. A inexorável, me chamam, a inflexível, dizem, como se nada pudesse me deter... Mas como você está vendo sou paciente, a quanto tempo espero aqui na sua casa?
 – Realmente a senhora tem me surpreendido. Mas me preocupa isto que a Senhora falou, que apenas os moribundos a vêem, será este o meu caso? Por que não a vi quando veio buscar aqui mesmo nesta casa o meu pai?
 – Não se preocupe, não é com você, nem com sua mãe se ela não se esforçasse tanto para morrer, ninguém sabe exatamente qual é o destino dela, mas eu sei que não é a hora dela agora, ela ainda tem mais alguns anos de vida se você interromper este processo. Eu lembro de você e de suas angustias, nas 48 horas que você passou no leito de morte do seu pai, quis algumas vezes levar ele antes da hora, enquanto seu interior gretasse, que era injusto tanto sofrimento, e pensou em afogá-lo com um travesseiro. Mas a inflexível é minha prima Laquesis que exige que eu só aja no momento que o fio acabe. E você me viu sim, me viu varias vezes, mas não tinha condição de compreender quem eu era e o que fazia aqui, no mesmo quarto onde está sua mãe. Você via minhas sombras, mas preferia, com medo, acreditar que era a sua falta de sono.
Enquanto falava se acomodava na banheira quente, e sorria de prazer, enquanto a água tépida envolvia seu corpo, respirava profundamente o cheiro da essência de dama da noite e das pétalas de gerânio. Fechava os olhos e parecia que tinha sonhos prazerosos. Mas de um momento para outro, seu rosto mudou e seus olhos se abriram com as orbitas vazias como uns buracos negros capazes de tragar galáxias. Sua voz mudou como se saísse das entranhas da terra:
– O que você está querendo comigo? Ninguém me trata bem! Sou totalmente odiada pelos humanos, os únicos animais que têm consciência da morte.
 – Desculpe – falei – mas nem sei o que faz aqui. É a mim que veio buscar? Qual meu interesse em te agradar? E continuei...
 – Que sabe a senhora sobre os sentimentos humanos, já que vive só, sem oferendas ou agrados por parte dos humanos, que passam a vida te evitando, o que conhece do amor? Como quer me entender ou adivinhar o meu intimo? Se não sabe nada do que estou passando. Eu que deveria perguntar o que faz aqui? Com tanta gente morrendo em agonia neste mundo, e a senhora perdendo tempo aqui na minha casa?
– Você não consegue entender direito o trabalho que faço..., o pré-morte também está incluído nas minhas atribuições... – disse ela. Não podemos mais chegar na hora da morte e assistir o fio das moiras sendo cortado, isto dava muita confusão, você humanos são muito teimosos, e quando vocês são pegos de surpresa tendem a acreditar que ainda estão vivos mesmo quando já estão apodrecendo. Você pode me fazer uma massagem nos meus pés.
Achei isto um abuso, mas querendo ver até onde chegaríamos, aceitei. Afinal, ela tomara a forma de uma mulher linda, embora que mesmo na água quente seus pés estavam gelados.
No começo de fevereiro, quando minha mãe atingia as profundezas da depressão, nos encontrávamos praticamente todos os dias, eu zanzando pela casa como um zumbi insone ela fazendo o seu trabalho. Cumprimentávamos-nos, as vezes batíamos um papo, mas não saia muito disso até o dia que ela me perguntou se tinha algum jogo em casa e dentro dos que tinha, ela me perguntou se eu jogava xadrez.
     – Joguei muito na infância e adolescência, mas faz tempo que não jogo, disse eu.
 – Eu também não sou grande coisa, mas vamos nos distrair um pouco, já que ambos passamos a noite em claro, respondeu ela.
Na verdade ela realmente não era grande coisa, dava a impressão que ela ficava divagando ao invés de planejar suas jogadas. Ganhei fácil a primeira partida. E a partir daí, todas as noites de fevereiro, jogamos pelo menos 3 horas de xadrez por noite, comigo ganhando a maior parte do tempo, e tripudiando a adversária. Nos divertíamos com isto, até o dia que comecei a perder...
Ao invés dela, devolver minhas brincadeiras, ela ficou séria e me disse:
    Olha estamos chegando a um ponto critico sua mãe desistiu da vida e neste ritmo ela não vai durar mais 30 dias. No dia seguinte comecei o período mais critico da minha vida. Minha mãe parou de comer e o que conseguíamos fazer com que ela engolisse, ela devolvia, os médicos diziam que não havia mais o que fazer era só esperar... O difícil era esperar impassível o fim. Saber que ela estava se matando, ou a depressão a estava matando, de qualquer forma seus dias estavam contados, mesmo sendo contra a vontade das moiras
Nesta noite, não quis jogar, e falei com a minha parceira noturna, hoje não, quero ficar quieto, mas ela insistiu, vamos sim e falamos durante o jogo.
Ela jogou com as brancas e deu uma saída classica.
(quando cheguei aqui percebi que não devia ser um conto, mas tinha a sunto para um livro inteiro que já está sendo escrito)