terça-feira, janeiro 24, 2006

Os Portadores de Sonhos




Gioconda Belli


Em todas as profecias

está prevista a destruição do mundo.

Todas as profecias dizem

que o homem criará sua própria destruição.

Porem os séculos e a vida que sempre se renovam

criariam também uma geração de amantes

e sonhadores;

homens e mulheres que não sonharam com a

destruição do mundo,

e sim com a construção do mundo das mariposas

e dos rouxinóis.

Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.

Por trás de sua aparência cotidiana

guardavam a ternura e o sol da meia-noite.

Suas mães os encontraram chorando

por um pássaro morto

e mais tarde muitos foram encontrados

mortos como pássaros.

Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas

e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos

por um inverno de carícias.

Foi assim que proliferaram no mundo os portadores

de sonhos,

atacados ferozmente pelos portadores de profecias

que falavam

de catástrofes.

Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de

utopias,

disseram que suas palavras eram velhas

- e de fato eram porque a memória do paraíso

é antiga

no coração do homem -

os acumuladores de riquezas os temiam

e lançavam seus exércitos contra eles,

mas os portadores de sonhos faziam amor

todas as noites

e do seu ventre brotava a semente

que não somente portava sonhos mas que os

multiplicavam

e os fazia correr e falar.

E assim o mundo criou de novo a sua vida

da mesma forma que havia criado os que inventaram

a maneira

de apagar o sol.

Os portadores de sonhos sobreviveram aos

climas gélidos

e nos climas quentes pareciam brotar por

geração espontânea.

Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas

torrenciais

tiveram a ver com isso,

a verdade é que, como formiguinhas operárias

estes espécimes não deixavam de sonhar e construir

mundos formosos,

mundo de irmãos, de homens e mulheres que se

chamavam companheiros,

que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se

diante da morte,

se curavam e se cuidavam entre si,

se ajudavam

na arte de querer e na defesa da felicidade.

Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento

e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento

e de suas claras percepções

e de lá partiam os que os haviam

conhecido

portando sonhos,

sonhando com novas profecias

que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis,

onde o mundo não haveria de findar na

hecatombe

mas onde os cientistas desenhariam

fontes, jardins, brinquedos surpreendentes

para fazer mais gostosa a felicidade do homem.

São perigosos - imprimiam as grandes rotativas

São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos

São perigosos - murmuravam os artífices da guerra

Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas

Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos

Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.

Os portadores de sonhos conheciam seu poder

e por isso nada achavam de estranho

E sabiam também que a vida os havia criado

para proteger-se da morte que as profecias

anunciam

E por isso defendiam sua vida até a morte

E por isso cultivavam os jardins de sonhos

e os exportavam com grandes laços coloridos

e os profetas obscuros passavam noites

e dias inteiros

vigiando as passagens e os caminhos

procurando essas cargas perigosas

que nunca conseguiram encontrar

porque quem não tem olhos para sonhar

não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.



E no mundo sucedeu um grande tráfico

de sonhos

que os traficantes da morte não podiam estancar;

em todas as partes há pacotes com laços de fita

que só esta nova raça de homens pode ver

e a semente destes sonhos não se pode detectar

porque está envolta em corações vermelhos

ou em amplos vestidos de maternidade

onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres

que os carregam.

Dizem que a terra depois de os haver parido

desencadeou um céu de arco-íris

e soprou de fecundidade as raízes das árvores.

Nós sabemos que os vimos

Sabemos que a vida os criou

para proteger-se da morte que as profecias

anunciam.


(trad. Celso Japiassu)


Em ti la tierra

Pequeña
rosa,
rosa pequeña,
a veces,
diminuta y desnuda,
parece que en una mano mía
cabes,
que así voy a cerrarte
y a llevarte a mi boca,
pero
de pronto
mis pies tocan tus pies y mi boca tus labios,
has crecido,
suben tus hombros como dos colinas,
tus pechos se pasean por mi pecho,
mi brazo alcanza apenas a rodear la delgada
línea de luna nueva que tiene tu cintura:
en el amor como agua de mar te has desatado:
mido apenas los ojos más extensos del cielo
y me inclino a tu boca para besar la tierra.

Pablo Neruda

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Romance da Deusa ll




A viagem começou com uma sensação de frio intenso, mas ao invés de me encolher na tentativa de me aquecer, meu corpo foi se enrijecendo, esticando e perdendo os movimentos. Em pouco tempo, as juntas endurecidas pelo frio começaram a se separar, os pés das canelas, os joelhos das coxas, o braço do antebraço e tudo morria. Apenas a minha mente estava ativa e viva, sentindo frio no meu corpo desmembrado.
Minha mente racional, tinha a consciência que estávamos numa manhã, porem, a noção de tempo era vaga e escurecia rapidamente, como se um dia inteiro tivesse passado em alguns minutos
Ela estava ao meu lado e eu sentia o seu calor, abri meus olhos com dificuldade e movi lentamente a cabeça para olha-la, e a vi dormindo do meu lado. Sobre seu rosto um fino véu com meandros de fractais cristalinos e transparentes. Alem do véu seu rosto trigueiro estava dourado como uma mascara de sarcófago, mas não me assustei ela estava tranqüila e linda como uma deusa adormecida, e tudo que consegui dizer foi: Eu te amo.
Seus olhos se abriram brilhando como duas estrelas rutilantes na lua negra. Sua boca se abriu num sorriso e disse: eu te amo! E eu não sei se com a mente ou palavras eu pedi: Me abrace, está muito frio e meu corpo congelado está se perdendo e fui abraçado por ela, que entrelaçando suas pernas nas minhas, e colando seu corpo ao meu, juntava com seu calor e devolvia a vida às partes mutiladas de meu corpo. Porém, melhor que me sentir aquecido era olhar para o seu rosto dourado e luminoso, agora já totalmente desvelado, do alto de sua cabeça, nascia por entre os cabelos quase negros um crescente lunar que envolvia um disco solar. Como Lúcio Apuleio, ao vislumbrar aquela que tem muitos nomes, com os cabelos cheios de estrelas, só não me joguei ao chão, pois não havia mais solo nem paredes. Com o abraço de Isis, meu corpo pertencia ao universo e neste, nós flutuávamos. E neste estado numinoso, fui beijado pela Deusa. Com a boca ainda fria e seca recebi a língua quente e molhada da divindade, sorvendo sua saliva e calor renascia, para uma nova vida, agora sem os limites da morte e tendo pela frente a infinita eternidade.
Enquanto me alimentava do seu calor e umidade, entrava em êxtase. O que até a pouco havia sido agonia se tornou encantamento e deslumbramento. Rodávamos por entre galáxias, eu inebriado de delicia e assombro fechei meus olhos num desmaio de arrebatamento, sugando a vida avidamente como uma criança recém nascida. Embalados pelos movimentos do universo ficamos naquele beijo, já que não existia tempo, por séculos e milênios até que me percebi acariciado por muitas mãos e ainda antes que abrisse os olhos, ouvi a deusa me dizer que tinha muitos braços e como despertando de um sonho transcendente percebi que entrava em outro sonho.
A deusa agora tinha muitos braços, sua língua cresceu e eu preso num abraço múltiplo, percebi, que eu também tinha muitos braços, e acariciava seus longos e escuros cabelos, pegava nos seus seios e quadris ao mesmo tempo que a puxava para mim. Como duas aranhas nos amávamos , nos agarrando e apertando, até o ponto que nossos corpos se fundindo no abraço se interpenetravam. Eu por mais que quisesse falar só podia balbuciar: Você é a Deusa, você é a Deusa...
Ela repetia: somos um só somos um só... Nossos corpos se moldavam contendo o universo e ao mesmo tempo estávamos sendo incorporados pelo espaço infinito. Estávamos repletos de estrelas e galáxias corriam dela para mim e de mim para ela, com os vasos sanguíneos repletos de luz nossos corpos brilhavam e dançávamos e nos amávamos prenhe de astros e estrelas.
Dançamos em circulo com todos nossos braços e atraiamos todo o cosmo para nós, até nem mais uma estrela restou, éramos apenas nós deus e deusa. Naquele momento estávamos plenos e repletos de luz, e nada existia a não ser nós que éramos um só, até que também fomos perdendo as cores, esmaecendo até nos perdermos na escuridão e ainda junto caminhamos nas trevas, envelhecemos e morremos, para um novo ciclo e um novo nascimento.
Trilhamos muito tempo no frio da morte até que sou despertado pelo seu choro, um choro triste e doído do que ficou pra trás, como o de Ariadne em Naxos. Eu a cobri de beijos... e envolvi o seu corpo com o meu.
E depois, de volta ao quarto onde tudo começara, me vi no espelho e com meus cabelos revoltos, lembrando mil serpentes, com um sorriso dionisíaco percebi a presença do deus de todos os transes e viagens, aquele que nos iniciou em seus mistérios, o sagrado Dionísio, nos mostrou que somos todos os deuses e também todo o universo.
Sorrindo olhei para ela, agora menina e desperta e disse: Você é a Deusa ela sorriu, como se o universo tivesse sido recriado e sorrindo me disse: somos um só, você se lembra?
Abracei-a novamente e com um beijo, nos fundimos novamente. Agora despertos e renascidos.


Amo-te mais do que poderiam dizer as palavras;
Mais que a vista, o espaço e a Liberdade.


Tu, Natureza és minha deusa.
Meus serviços a ti pertencem,
Porque deveria eu
Suportar a afronta do preconceito e permitir
Que a malicia dos povos me deserdassem.

(Rei Lear – Shakespeare)

terça-feira, dezembro 06, 2005

Aqueles que agem nas sombras, e tem nas mentiras suas armas




Esquecendo a conotação dualista das palavras, sombras em comparação a luz, o titulo acima fala dos dissimulados, dos covardes e daqueles que tem nas suas múltiplas mascaras os poderes com os quais buscam submeter as pessoas.
Gente que escreve anônimo, e se escondem em vários nicknames, circulam, xeretam, buscam pontos fracos e criam situações onde com suas línguas insidiosas introduzem mentiras em verdades transformando no verdadeiro em falso.
Um exemplo claro disso é um e-mail que recebia há semanas de uma ex namorada. Deixando bem claro que havíamos terminado numa boa e que mantínhamos um excelente relacionamento de amizade, que por si só reduzia e praticamente eliminava a dor da perda.
Pois bem, passados 3 meses do termino do namoro, eu percebi que do nada, apareceu um crescente clima de animosidade, e que algumas pessoas do meu relacionamento, passaram a me contar coisas que ela havia dito, (e como eu disse acima) entremeando verdades com mentiras, ou seja tinham bases verdadeiras, embora o resultado final resultasse em situações constrangedoras. Pois bem, e nós que já nem mesmo namorávamos, passamos de uma boa amizade para uma situação de beligerância, que durou praticamente 2 anos, até que os caminhos se separassem.
Passada a mágoa, creio que aos dois bateu saudade, não exatamente a saudade do relacionamento, mas sim das conversas, dos ideais e pesquisas comuns, afinal buscávamos a mesma coisa, um neopaganismo, muito maior que a apenas os aspectos religiosos, pois ambos viam, que mais religião o paganismo era uma cosmovisão, uma maneira de ver o mundo, algo como um movimento social e cultural, que resgataria valores pagãos e ancestrais, que o milênio de domínio do cristianismo e da sociedade dominadora que vivemos, nos impuseram.
Bem, no resumo da opera, houve algumas tentativas de resgatar este trabalho, mas neste período de resgate apareceram algumas magoas, que não haviam cicatrizado, e neste período começamos a descobrir que muitas destas magoas eram causadas por mentiras e fofocas. Algumas destas tão fortes que pareciam impossíveis de serem curadas.
Assim esta mensagem de semanas atrás, começa com um desabafo, carregado de raiva e dor, mas termina com uma possibilidade de paz. Uma paz cuidadosa e delicada, que precisaria ser levada com cuidado e com a revelação de todas as verdades, que olhadas por ambos poderia fazer sentido, e apontasse o que nunca falamos.
Um recomeço do que mais nos unia, a paixão por livros e história e as viagens que conseguíamos fazer quando discutíamos, (e eram discussões que muitas vezes durava semanas) quando os dois saiam enriquecidos e correndo em direção a uma biblioteca ou livraria se abastecendo de mais livros, para aprofundar as pesquisas.
Pois bem, no final da mensagem ela pedia que eu de coração pedisse desculpas por algo que eu tenho certeza não ter dito, ou pelo menos não disse na maneira ofensiva com a qual a versão superou o fato.
Apesar de não ter do que me desculpar, passei estas ultimas semanas, vendo de certa forma isto acontecer novamente, e já foram varias as vezes que isto ocorreu aqui na rede, onde pessoas sem rosto e com desvios de caráter, mentem e dissimulam tão bem, em busca de objetivos escusos e com inveja, deliberadamente buscam minar amizades e amores.
Pensei melhor e percebi que ainda existem amigos e amigas que perdi nestes 8 anos de vida virtual, por causa das maledicências e neste momento onde busco minha vida real, na verdade uma vidinha careta com a pessoa que amo, com poucos amigos sinceros e sem guerras estúpidas.
Então, minha amiga, independente do que eu tenha dito ou não dito, me desculpe, se por acaso algo que eu falei ou não falei, tenha te magoado, é realmente de coração, e publicamente, que eu peço que me perdoe.
É hora de desmascarar as falsidades e as provocações, vamos separar o joio do trigo, e deixar que a Ceifadora faça o seu trabalho, e cuide dos que se escondem nas mascaras.

quarta-feira, novembro 23, 2005

+ muito mais Azul




Quando você cantou pra mim aquela musica, olhando nos meus olhos e sorrindo. Os céus se abriram para que o sol voltasse e agora quando as trevas ameaçam a voltar, lembro do seu rosto e sorriso e olhos e coloco o CD que você deixou gravado pra mim e mesmo que a voz seja da Ana Carolina, mas a lembrança é de você, e tem o efeito de uma oração apotropaica que afasta as nuvens escuras e faz com que o sol brilhe e o sorriso volte ao meu rosto. E a vida percorra meu corpo como uma corrente elétrica fazendo que me coração bata forte e o sangue encharque meu cérebro, me trazendo devaneios e pirações malucas e gostosas das nossas de nossas noites e dias juntos.
Estou quase fazendo um patuá com esta letra para carregar pendurado no pescoço, para poder a qualquer momento apertar junto ao peito para aplacar a dor da distancia, quando passamos algumas horas separados.


Evidencias
(Daniel)

Quando eu digo que deixei de te amar
É porque eu te amo
Quando eu digo que não quero
Mais você
É porque eu te quero

Eu tenho medo de te dar meu
Coração
E confessar que eu estou
Em tuas mãos
Mas não posso imaginar
O que vai ser de mim
Se eu te perder um dia

Eu me afasto e me defendo
De você
Mas depois me
entrego
Faço tipo, falo coisas que
Eu não sou
Mas depois eu nego
Mas a verdade é que sou
Louco por você
E tenho medo de pensar
Em te perder
Eu preciso aceitar que não dá
Mais pra
Separar as nossas
vidas

E nessa loucura de dizer
Que não te quero
Vou negando as aparências,
Disfarçando as evidências
Mas pra que viver fingindo
Se eu não posso enganar
Meu coração
Eu sei que te amo,
Chega de mentiras
De negar o meu desejo
Eu te quero mais que tudo
eu preciso do seu beijo
Eu entrego a minha vida
Pra você fazer o que quiser
De mim
Só quero ouvir você dizer
Que sim
Diz que é verdade que tem
Saudade
Que ainda você pensa muito
Em mim
Diz que é verdade que tem
Saudade
Que ainda você quer viver
Pra mim

Eu me afasto e me defendo
De você
Mas depois me
entrego
Faço tipo, falo coisas que
Eu não sou
Mas depois eu nego
Mas a verdade é que eu sou
Louco por você
E tenho medo de pensar
Em te perder
Eu preciso aceitar que não dá
Mais pra
Separar as nossas
vidas

E nessa loucura de dizer
Que não te quero
Vou negando as aparências,
Disfarçando as evidências
Mas pra que viver fingindo
Se eu não posso enganar
Meu coração
Eu sei
Que te amo
Chega de mentiras
De negar o meu desejo
Eu te quero mais que tudo
Eu preciso do seu beijo
Eu entrego a minha vida
Pra você fazer o que quiser
De mim
Só quero ouvir você dizer
Que sim
Diz que é verdade que tem
Saudade
Que ainda você pensa muito
Em mim
Diz que é verdade que tem
Saudade
Que ainda você quer viver
pra mim
Diz que é verdade que tem
Saudade
Que ainda você quer viver

Un Vestido Y Un Amor (Fito Paez)




Te vi... juntabas margaritas del mantel
Ya sé que te traté bastante mal,
no sé si eras un angel o un rubi
O simplemente te vi.

Te vi, saliste entre la gente a saludar
Los astros se rieron otra vez, la llave de mandala se quebró
O simplemente te vi.

Todo lo que diga esta de más,
las luces siempre encienden en el alma
y cuando me pierdo en la ciudad, vos ya sabés comprender
Es solo un rato no mas, tendria que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi... yo no buscaba nadie y te vi.

Te vi... fumabas unos chinos en Madrid
Hay cosas que te ayudan a vivir
no hacías otra cosa que escribir
Y yo simplemente te vi.
Me fui... me voy, de vez en cuando a algún lugar
Ya sé, no te hace gracia este pais...
Tenias un vestido y un amor...y yo simplemente te vi.

Todo lo que diga esta de mas,
las luces siempre encienden en el alma
y cuando me pierdo en la ciudad,
vos ya sabes comprender... es solo un rato no mas,
tendria que llorar o salir a matar...
Te vi, te vi, te vi... Yo no buscaba nadie y te vi.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Para minha Deusa




Quando te perdi, me esqueci dos deuses e o universo deixou de ter sentido. Penetrei num mundo amorfo envolto em brumas, e não reconhecia nem mesmo os sendeiros do meu próprio labirinto. Tateava pelas paredes buscando os caminhos para o centro que não mais existia, repetia de olhos fechados a dança do grou, que antes sempre me levava de volta ao meu trono, mas o que agora conseguia era apenas me estatelar pelas paredes de pedra, que mudaram todas de lugar.
Não reconhecendo minha casa, não me conhecia mais. Perdendo-te, perdi também a mim mesmo, perdi rumo e vontade, e sem mais referencias parei de reagir e caminhando sem os deuses na nevoa percebi, que você, que eu acreditava ser o meu derradeiro amor, era na verdade o primeiro, o único amor que tive, numa vida que julgava plena de amores.
Aí descobrindo o amor, depois que te perdi, acabei me redescobrindo. Percebi em mim as dores humanas e parte da minha humanidade perdida, e aí como homem reconheci meus erros. E embora sendo tarde demais, busquei você.
Ao te reencontrar vi nos seus olhos as escuras fontes de onde brotam as águas potáveis e límpidas, nascentes de toda a vida, e neles ainda existiam amor e não mais me importavam suas palavras, pois o seu olhar não conseguiu mentir pra mim, o nosso amor ainda era vivo e forte, e os deuses que eu havia abandonado, um a um voltavam a se aproximar.
Eros este pequeno demônio, filho da beleza e da guerra, que para Platão era filho da necessidade e penúria, pois era o ultimo dos sentimentos a abandonar aos homens, foi o primeiro a voltar e antes mesmo que eu recobrasse o juízo, arrancou meu coração do peito. Athena, que simboliza a razão, endureceu seu coração, para que os sentimentos ali não penetrassem, e você atendesse aos meus apelos. Hera que não admite rompimentos, me deu de presente a loucura, que tal qual a Dionísio, me dava gana de devorar a Terra, percorrendo as estradas sem destino para fugir da suas palavras e atitudes racionais. Por muito pouco não me perdi, pois, pouco conhecia do mundo que cerca o meu labirinto onde sempre fui o rei e o senhor.
Assim vazio e louco, tudo que eu queria era apagar minhas lembranças e esquecer você, mas fazendo isto, eu estaria negando a mim mesmo, e tudo de bom que existiu entre nós. E ao me negar, mataria aquele que me transformei ao te conhecer. Mas melhor a morte do ego, que a dor de viver sem você.
Planos feitos, durante minha insanidade, a minha vingança seria que você também me perderia, pois jamais eu voltaria a ser quem eu era.
Foi quando chegou Afrodite, que ao invés de suas bênçãos, me ofereceu a dor, pois me chamou a razão, como imaginar uma vida sem seus beijos, como imaginar o nunca mais? Nunca mais seu cheiro, nunca mais seu calor, nunca mais sua voz seus carinhos, e sua presença. Com isto a Deusa de Chipre, me despertou, pois muito pior que perder você seria nunca mais te ver.
Fui voltando da loucura lentamente, e me perguntando, o que havia acontecido conosco ? afinal, você já tinha me despertado a atenção na primeira vez que nos vimos, anos antes de nos conhecermos, de você se declarar minha pretendente e de nos conhecermos numa noite inteira de beijos. E mais de um ano de uma vida plena a dois.
Aconteceu, que eu me julgava um Deus capaz de controlar todas as minhas emoções, deixando minha lua em câncer, abandonada num canto qualquer. Sentir amor, sempre senti, sempre te amei, mas não o explicitava com as palavras que tanto te faziam falta. Meus atos duros e secos, não eram contra você, mas contra meus erros passados, e para nós, eu queria tudo diferente do que havia sido, e por querer diferente errei, e acabei sendo quem nunca fui, eu mesmo inteiro na relação, e isto me amedrontou, e com medo de tudo que sentia fugi de você.
Afrodite desvelou-se, e mostrou sua face negra, quando a beleza e o amor são instrumentos de tortura e assim, após perder você, perdi o medo de te amar, perdi também meu orgulho e minha força, e me mostrei humilde e fraco. E sem rédeas desembestei como um potro nascido livre a lhe dizer o que sentia e tudo aquilo que havia calado, falei de amores planos e de todas as loucuras que o amor nos leva a dizer.
Com isto descobri que nunca havia te perdido, a verdade é que me perdi de mim mesmo. E agora vejo que é impossível controlar o tempo, e que os erros do passado, só podem ser consertados no futuro e pergunto a você minha deusa:
Vamos recomeçar ? Você quer namorar comigo ?



SUPERHOMEM - A CANÇÃO

Gilberto Gil


Um dia
Vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada
Minha porção mulher, que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É que me faz viver

Quem dera
Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe
O Superhomem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher

Azuis



Pablo Neruda

Traduções de Ari Roitman e Paulina Wacht

POEMA 15

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente,

e me ouves de longe, e minha voz não te toca.

Parece que teus olhos houvessem saltado

e parece que um beijo fechara a tua boca.

Como todas as coisas estão cheias de minh'alma

emerges das coisas cheia de alma, a minha.

Borboleta de sonho, tu pareces com minh'alma,

como pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.

E estás como a queixar-te, borboleta em arrulho.

E me ouves de longe, e minha voz não te alcança:

permite que eu me cale com teu silêncio agudo.

Permite que eu te fale também com o teu silêncio

claro como uma lâmpada e simples como um elo.

Tu és como a noite, calada e constelada.

Teu silêncio é de estrela, afastado e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.

Distante e dolorosa como se estivesses morta.

Uma palavra, então, um sorriso são o bastante.

E fico alegre, alegre porque a verdade é outra.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Labirinto



Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído,
Só sinto um vácuo imenso onde alma tive...
Sou qualquer cousa de exterior apenas,
Consciente apenas de já nada ser...
Pertenço à estúrdia e à crápula da noite
Sou só delas, encontro-me disperso
Por cada grito bêbedo, por cada
Tom da luz no amplo bojo das botelhas.
Participo da névoa luminosa
Da orgia e da mentira do prazer.
E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo, em torno
Da minha alma, os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de perscrutar-me.


Perdido
No labirinto de mim mesmo, já
Não sei qual o caminho que me leva ...
(Fernando Pessoa)

quinta-feira, outubro 20, 2005

A voz de Joana




È incrível, como podemos sentir tanta saudade da voz de uma criança, as vezes ando tão desesperado, para ouvir a voz da princesa Joana, que se encontra prisioneira de corpo e alma da Bruxa má do Oeste Ligo, vezes inutilmente e outras que ela fala muito pouco, pois a Malvada que a aprisiona, praticamente, domina sua mente.
Cercada de Espinhos impenetráveis, e guardada pela virago, vestida de magoa e ódio, não compreendeu que amor só existe a dois e que amor sem reciprocidade, não é amor, mas sim algo próximo da doença. Que transforma o amor em ódio, e de certa forma impede o contato e separa o sangue, algo que é castigado pelos deuses.
Amores que acabam, não devem se transformar em ressentimentos e fúria, a menos é claro que este rompimento fosse causado por mentiras e traições não apenas físicas, mas sim traições de alma. Que é a traição da confiança e falta de consideração.
Mas voltando a Joana, tenho feito o que posso pra não perder o contato, ligo, mesmo que assustada pela descrição que devem fazer sobre o demônio, consigo ainda arrancar duas ou mais palavras dela, ainda que sejam Pai Catacumba ou to vendo a Xuxa. Não vi a Princesa nem no seu aniversario, mas mandei presentes, e nem uma foto da menina com as roupas que mandei consegui ver.
A princesa cresce longe dos meus olhos, cercada de escuras brumas, que a escondem de mim no longínquo oeste, muito além do arco íris, so me resta a sua voz, pequena frágil e infantil a me dizer Pai, pai catacumba, vou ver a Xuxa, mas só isto, já me alegra, pois ela sabe que mesmo a distancia, existo, a amo e um dia ela ira crescer e o poder da bruxa má vai se esvair, e nos reencontraremos, mas eu já terei perdido toda a sua infância, mas ainda que triste sei, que meu sangue não se perderá, um dia a minha princesa menina vai se aproximar sozinha.

Até Pensei
Chico Buarque


Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia, toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha
Toda a dor da vida me ensinou essa modinha