
Percorrendo os meandros viscerais até o âmago do ser humano, o inferno da mente. E dali retornar um novo ser, sem mais nenhum medo, vencendo as trevas da ignorância.
quinta-feira, abril 06, 2006
terça-feira, abril 04, 2006
No Outono

No outono colhemos os frutos do que plantamos, e este será o terceiro outono que colhi a mais saboroso dos frutos perigosos e proibidos. Creio que já na primeira mordida num abril passado, finalmente apreendi porque o amor é tão proibido, porque com ele tudo podemos, narcótico, entorpecente ele nos faz perder o sentido das coisas e ver o mundo de maneira inusitada. Ficamos amortecidos para as dores do mundo e se alguma coisa dói é a falta da pessoa amada.
O amor é proibido e castrado por quase todas as religiões, afinal quando amamos nos tornamos mais próximo dos deuses e o nosso credo é a paixão, nos entregamos ao ser amado e ao nosso destino sem duvidas ou medos, acreditamos na imortalidade da alma, pois uma vida é muito pouco tempo, quando amamos de verdade percebemos o valor da eternidade, porque depois que comemos este fruto nos sentimos realmente plenos e integrados ao universo.
Lisérgico e alucinógeno pois por mais que a nossa volta as paredes ruem envoltas em escuridão e névoa, conseguimos enxergar cores inusitadas e raras, deixando que todos os males escapem da caixa de Pandora e agarramos com força a esperança e ficamos com a esperança que podemos reconstruir tudo, que as nevoas se dissiparão e o sol voltará a brilhar. Como loucos nos agarramos a esperança, a ultima das dádivas de Zeus aos humanos, e por nossa fé e crença investimos contra os moinhos de vento até que todos os males se esvaeçam a vida retome seu curso.
Mais do que a primavera onde a natureza explode em flores e vida o outono é a recompensa pelo trabalho e a colheita do que plantamos, dos frutos que sonhamos e que tanto lançamos sementes, que muitas vezes pareceram vingar, mas que no entanto não frutificaram e feneceram a cada outono embora tivessem prometido tanto nas primaveras.
O amor colhido no outono não é temporão, mas sim o fruto colhido em seu esplendor de cor e sabor, que chega no tempo certo sem falsos fertilizantes ou implementos tóxicos, que contaminam e envenenam. Estes amores maduros colhidos no tempo certo, são a promessa de todos os que experimentam antes do tempo e que nunca nos satisfizeram. São a recompensa dos deuses, para quem perseverou no plantio e na escolha das sementes e que nunca perdeu a fé em Vênus e no seu filho Eros.
Os amores do Outono, estes sumarentos e doces frutos, trazem as lembranças da adolescência, de sítios bucólicos e frutas colhidas no pé, com sabor inesquecível como as goiabas da juventude, já que as de hoje. maiores e até mesmo mais bonitas, só trazem o enganador aroma de goiaba, porém insípidos, sonsos, sem sabor ou consistência da fruta verdadeira. Este gosto de infância e de regalo nos faz ter prazer em viver e nos rejuvenesce tanto que “venho até remoçando me pego cantando sem mais nem porquê”
Quero a vida sempre assim
Com você perto de mim
Até o apagar da velha chama
E eu que era triste
Descrente desse mundo
Ao encontrar você
Eu conheci o que é felicidade
Meu amor
(Antônio Carlos Jobim)
sexta-feira, março 24, 2006
Venerium, o Lance de Venus

Apesar de deturpado por quase dois milênios, o verdadeiro sentido da palavra venerium, não é sexual, ele significava para os romanos o melhor lance no jogo de dados, portanto um lance de muita sorte, um Royal Street Flash no jogo de dados, e conseguir um numa rodada era muito raro, só mesmo um amado de Vênus podia conseguir um deles numa rodada de dados.
Mas às vezes alguém conseguia mais de um o que era muito raro. Porém, se este ganhador se jactasse da sua sorte ou do amor da Deusa perdia tudo rapidamente. Porque Vênus não tem nada a ver com a sorte e para os deuses gabar-se e exaltar-se é a expressão da insolência, algo que é exatamente o contrario do espírito venusiano.
“Nec semper Veneris spes est profitenda roganti” Nem sempre a expectativa de Vênus é um convite declarado. O charme venusiano está nas palavras de Ovídio “Muitas cobiçam o que foge, e a quem as assedia oferecem destem”. Ele aconselha moderação silencio calma e cortesia, para os que querem se desenvolver na arte de amar.
A Anquises, pai de Enéas, a quem a deusa amou, ela tornou aleijado por ter se vangloriado aos amigos de se deitado com Vênus. Pompeu que se dedicou a Vênus Victrix, associada à vitória, inaugurando templos e cultos para sua protetora, porém de nada isto adiantou, quando seu inimigo foi César da gens de Iulo (Julia) o filho de Enéas neto de Vênus. Na véspera da batalha decisiva, sonhou que enfeitava o Templo de Vênus e percebeu que o sonho não lhe era favorável, trocou sua divisa “Vênus Victrix” por “Hercules Invictus” e perdeu a batalha de Farsalo.
César vitorioso, sabia que no charme venusiano, o próprio conceito de sucesso é fruto de encantamento, e em sua volta a Roma ao invés de fazer um templo para a Vênus Vitoriosa ele o fez pra “Venus Genitrix” a Vênus Geradora, a Vênus Mãe, numa demonstração clara, de que ele sabia, que a vitória é simplesmente uma conseqüência da proteção venusiana.
Os benefícios dados por Vênus de forma alguma depende de fatores aleatórios como a sorte ou o azar, mas sim de “Charme” (feitiço, encantamento) da Deusa que dá aos seus protegidos a certeza da vitória não importando o tipo de empreendimento.
A deusa protege aqueles que lhe rende culto, aqueles que fazem o veneratio ( veja em alguns post abaixo) não apenas se entregando totalmente a ela como também aqueles que se entregam totalmente ao amor, sem pudor ou medo, pois a beleza é a mãe do amor.
Vênus acolhe em seu seio aos amantes e jamais os desampara. Alimentando tanto a paixão quanto o restante da vida terrena, assim aos amados de Vênus jamais faltará teto ou comida. Porém para aqueles que se amedrontam com seus próprios sentimentos, fogem ou desprezam os presentes de Cipris, ela reserva dor e lagrimas.
Ciúmes em demasia ou desconfiança afrontam a deusa, já que a paixão é presente dela. Como num Veneratio, devemos nos entregar por inteiro e não nos preocuparmos com mais nada, pois ela cuidará de tudo. Mas como no jogo de dados devemos lembrar que o venerium, não acontece toda hora, e se esperarmos que ele aconteça sempre, cairemos na presunção que os deuses detestam e entregam a Nemèsis, aquela que exalta aqueles a quem vai derrubar.
quinta-feira, março 23, 2006
Guarda-chuvas

Um dos aspectos que mais chamam a atenção nos guarda-chuva é o numero impressionante de perdas, passou a chuva ele é esquecido em algum lugar e geralmente as pessoas só voltam a se lembrar deles na próxima chuva, aí nem adianta tentar lembrar onde perdeu, pois com toda a certeza ninguém vai lembrar de um guarda-chuva esquecido, apenas o dono, principalmente se era um bom guarda-chuva, daqueles mais robustos que agüentam chuva forte, e até servem de apoio e bengala.
Comprar outro baratinho destes que existem na loja de R$ 1,99, não vai resolver, pois com a primeira chuva ele se desfaz, vira do avesso e como num passe de mágica deixa você na mão, sem nenhuma proteção.
E o pior de tudo, enquanto sentimos falta, ele, o guarda-chuva não está nem aí, pois como tudo que foi perdido só faz falta pra quem perdeu, o que foi perdido se conforma e fica ali como quem não quer nada jogado num canto até que alguém, vendo que esta chovendo passa a mão nele, pra quebrar um galho até perceber que ele é forte e seguro, um produto raro nos dias de hoje. Pronto, sem sair do lugar o guarda chuva arruma uma nova dona, que dá mais valor que a anterior. Vai cuidar melhor dele, prestar mais atenção, vai seca-lo antes de guardar e não vai usa-lo como bengala, uma terceira perna, porque afinal esta não é a sua verdadeira função, mas sim proteger .
Enquanto isto depois de varias tentativas, aquele que perdeu por esquecimento, começa a se desesperar, acreditando que só aquele guarda-chuva servia e que nunca vai achar outro igual. Procura, se informa e se molha tentando descobrir quem achou o que ela não deu tanto valor enquanto o possuía, acreditava que o guarda chuvas era apenas um objeto e que sempre estaria ali a disposição, já que ele podia até servir de bengala, mas não tinha duas pernas para fugir. Como realmente aconteceu, ele não fugiu , foi displicentemente esquecido, como algo sem valor. E o pior não foi a primeira vez , foi fato recorrente.
Hoje faça chuva ou faça sol o guarda chuvas se abre e passeia alegremente, com sua nova dona, que se afeiçoou a ele o segura com firmeza seu cabo, firme mas com a suavidade de uma caricia, o guarda chuva sente se feliz com o toque quente e suave daquela mão e finalmente sente que não será mais perdido e abandonado.
Bem, se isto acontece com guarda-chuvas, o que diremos das pessoas, amigos e amores que as pessoas perdem por falta de atenção e cuidados, mas em geral a regra é sempre a mesma aquele que foi perdido pode por um tempo ficar largado em algum canto, mas não perdem a oportunidade que a vida lhes oferece, e nunca deixam de seguir em frente.
Já aquelas que perdem, vivem muito tempo no passado, se apegam ao que perdeu e buscam de qualquer forma tem de volta aqueles que perdeu, nem que para isto usem dos piores meios, chantagens e ameaças, o que só piora a própria situação, pois na verdade estão tratando a pessoa como um objeto, esquecendo que sentimentos mudam, e que mesmo a grande amizade ou amor que sentiam, se acabou com o abandono. E hoje, recuperado tem outro amor, outros amigos e continuou sua vida. Algo que os perdedores deviam fazer também, ainda mais quando existe algo em comum, que precisa conviver com o outro, afinal sangue é sangue.
quinta-feira, março 16, 2006
O Fio do Destino
Sempre soube de que do destino ninguém escapa,
ou se conforma e se deixa levar pelo próprio destino
ou é arrastado por ele, e isto é inexorável.

Nem mesmo “Tique”, a fortuna, malabarista cega que joga seus malabares enquanto caminha, sem saber ao certo quem dos humanos sobe ou desce, tem o poder de burlar o que foi traçado pelas Moiras. Mesmo o toque Tique já estava previsto no fio cardado por Cloto.
Um bocado de alegria, um tanto de tristeza (afinal como valorizar a uma sem conhecer a outra) um pouco de sorte um quinhão de azar; amor, desilusões e tudo que torne a vida completa.
Cloto carda e fia a vida de cada ser vivente, homens e deuses estão sujeitos a esta mescla das fibras que compõem o fio de sua existência.
Pacientemente Cloto extrai fibras de flores e plantas para criar o enredo do destino de cada um de nós. Gerânios simbolizam a tristeza, Jacintos as magoas, a desconfiança está na Alfazema, a pureza no Lírio, Amarílis trás o orgulho e Anêmona que nos dá o sentimento de abandono. Estas flores são pisadas e secas e depois são fiadas em conjunto com a vaidade do Narciso, um bocado de Miosótis que significa o amor verdadeiro, a Altivez do girassol e a inocência das Margaridas. Uma variedade de rosas; as vermelhas simbolizam as emoções apaixonadas, as cor-de-rosa estariam ligadas aos amores sublimes, as brancas ao amor puro e incondicional, mas as amarelas são misteriosas - uns dizem que simbolizam o ciúme, enquanto outros afirmam que estão ligadas aos amores afortunados. Desta tessitura de emoções e sentimentos, misturado sem proporções estáveis é que é tramado e fiado o nosso destino. Assim, a cada um de nós cabe uma vida diferente, cabendo a alguns uma vida amorosa e rica e a outros uma vida pobre e vazia.
Porém não adianta nos rebelarmos, pois a revolta só vai nos sofrer mais do que devíamos, e como conta a mitologia, cada ato cometido para fugir ao destino mais nos aproxima dele.
Laquesis põe o fio no fuso e faz a meada, o numero de voltas, todas as idas e vindas que passamos pela vida, e toda vez que queremos mudar este curso, acabamos puxando o fio e embaralhamos o novelo, e muitas vezes ao querermos mudar ou apressar o destino damos um nó em nossa vida. Podemos passar anos ou mesmo a vida inteira desatando algo que não conseguimos viver e antes que consigamos esquecer e superar.
Átropos, a moira cega, corta o fio de nossa vida com sua implacável tesoura, sem enxergar, o que explica que uns tem vida longa e outros passam rapidamente pela vida antes de voltar ao seio de Gaia.
Quantas vezes mudamos (mesmo sem saber por que) o rumo de nossas vidas, viramos a mesa, abandonamos empregos, deixamos de amar aquela que era a mulher de nossas vidas e quando percebemos já é impossível voltar atrás por mais que nos arrependemos. Isto é o destino, se está tramado no fio de Cloto, não tem como voltar atrás, a única saída é seguir em frente da melhor maneira possível. Nós mesmos criamos as situações que remetem ao cumprimento de nossa sina ou gloria.
É dito que se tivermos um momento de lucidez antes de morrer, nossa vida passará como num filme na nossa frente e é somente neste momento que conseguimos ver nosso destino inteiro e aí perceberemos o sentido que fez tudo o que vivemos e percebemos que por mais que fugíssemos, não escapamos do nosso destino. Quando olhamos para trás fazendo um balanço do que vivemos, percebemos claramente que cada mínimo ato fez sentido para o que veio depois dele.
Por mais que pareça conformismo ou fatalismo acreditar no destino, está crença é a verdadeira liberdade, pois seguimos os nossos sentimentos e intuições que são as maneiras de dialogar com o que nos está reservado.
È impossível perceber o que nos está reservado, este segredo está guardado com as Parcas e acreditar que sabemos o que nos reserva é a pior armadilha, pois seremos arrastados justamente para onde tentamos fugir.
Será que Édipo teria uma vida diferente se Laio não acreditasse no Oráculo ? por que os troianos não acreditaram em Cassandra ? e Paris seria um simples pastor honesto se Príamo não escutasse as predições ? não sabemos o que aconteceria, mas os mitos nos relatam o que aconteceu:
Laio foi morto por Édipo exatamente como disse o oráculo, afastar Édipo foi uma vã tentativa.
Cassandra previa exatamente a verdade, mas foi amaldiçoada por Apolo, o deus que era aliado de Tróia e por isto ninguém acreditava nela e tudo aconteceu como ela previra.
Paris foi exposto no monte Ida, com esperança que os sonhos cheios de presságios de sua mãe Hécuba não se concretizassem, mas ainda assim, foi o causador da destruição da cidade.
Assim, a fuga do destino nunca acontece, mas quem sabe qual é realmente o seu destino ? Eu pelo menos não sei, mas com certeza sempre analiso com muito cuidado os presságios, pois neles podem conter alguma armadilha das Moiras.
SEGUE O SEU DESTINO
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
(Ricardo Reis)
quarta-feira, março 15, 2006
Cotidiano

Quem mais poderá acreditar, que me levanto antes de você para preparar o café e te levo na cama?
Que paro extasiado olhando seu corpo moreno em contraste com o branco da cambraia, e que tenho que tomar cuidado e me lembrar da responsabilidade para não jogar o café com leite gelado e as torradas quentes pra cima e voltar pra cama e voltar a dormir com você.
Que te acordo com longos beijos para tirar da sua língua o que restou dos seus sonhos na noite, que adoro seu gosto de noite e seu cheiro de trevas, sento ao seu lado na cama com meu café amargo, e me delicio com a visão do que aparece do seu corpo, que você busca esconder, mas que a mágica cambraia dos lençóis faz questão de desvelar e te beijo novamente sentindo o gosto infantil do leite em sua boca.
Que quando você segue para o banho me aninho em seu travesseiro, colando meu corpo ao colchão para roubar pra mim o seu calor que ainda está encharcado com o suor da madrugada, cubro a cabeça e aspiro o cheiro de nós dois que ainda impregna o quarto e se concentra entre os lençóis.
Posso falar a vontade, ninguém acreditaria que isto é cotidiano e que ocorre por meses a fio, poderia dizer que a cada breve despertar digo que te amo e que creio que sonho com você falando o mesmo no meu ouvido, que a cada virada na cama trocamos beijos e juras.
Ninguém acredita mais no amor, é mais fácil chorar em filmes e livros românticos do que amar de corpo e alma como faziam os antigos pagãos, sem culpa ou medo do pecado, hoje, chamam o amor de paixão e acreditam que dura pouco e preferem viver de sonhos, e buscam almas gêmeas e não sabem que no dia a dia é que construímos o amor e que nos entregando vamos nos conhecendo e nos conhecendo vamos aceitando minuto a minuto as diferenças exercitando a compreensão e construindo pedra por pedra a fortaleza que nos proteje da inveja daqueles que fogem do amor.
Vejo você sair do banho, te peço um beijo e te abraço por minutos, pois sei que o tempo é inimigo do amor e me excito com seu strip-tease aos avessos de quando você se veste e tento lembrar da sua programação diária e se encontro tempo pra voltar pra casa no almoço, para um amor despudorado a luz do dia com as janelas abertas.
Sigo com você para te dar um beijo na porta do elevador e as vezes sigo ao seu lado, descabelado como em todas as manhã, orgulhoso e de mãos dadas até o estacionamento.
Quem vai crer, que penso o dia todo em você, e que espero muitas vezes em desespero que a noite chegue, pra te preparar um banho, te esfregar inteira e lhe fazer o jantar. Ninguém acreditaria ainda que eu jurasse que é verdade que sempre dormimos abraçados, e que muitas vezes trançamos tanto nossas pernas a ponto de eu acordar a noite sem saber direito o que sou eu e o que é você.
Mas deixa o nosso cotidiano é nosso e verdadeiro, ainda que todos achem que é poesia e delírios deste sonhador apaixonado.
Cotidiano
Chico Buarque
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde, como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca prá beijar
E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
Me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode as seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
É isso aí...

Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa
Quase sempre.
É isso aí...
Os passos vão pelas ruas
Ninguém repa...rou na lua
A vida sempre continua.
Eu não sei parar... de te olhar
Eu não sei parar... de te olhar
Não vou parar... de te olhar
Eu não me can...so de olhar
Não sei parar... de te olhar.
É isso aí...
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade.
É isso aí...
Um vendedor de flores
Ensina seus filhos
A escolher seus amo...res
Eu não sei parar... de te olhar
Eu não sei parar... de te olhar
Não vou parar... de te olhar
Eu não me can...so de olhar
Não sei parar... de te olhar.
É isso aí...
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade.
É isso aí...
Um vendedor de flores
Ensina seus filhos
A escolher seus amo...res
Eu não sei parar... de te olhar
Eu não sei parar... de te olhar
Não vou parar... de te olhar
Eu não me can...so de olhar
Não vou parar... de te olhar.
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Vênus Veneratio.

Escrevendo um texto sobre as várias faces de Vênus, enquanto atrás de mim a cama desarrumada e vazia, lembrava a noite apaixonada que se passou. E já sentindo saudade, ainda que apenas uma hora ou duas havia se passado e que passariam mais umas duas para que ela voltasse para casa. Exagerado alguns diriam, sentir saudade por tão pouco tempo. Porém creio que Vênus justamente por ter nascido da ultima ejaculação de Urano, é uma vingança de seu pai a Cronos, pois tanto a beleza como o amor subvertem o tempo, fazendo que este passe rápido nos momentos em que os amantes estão juntos e se prolongando indefinidamente quando separados.
Enquanto escrevia sobre as faces desta e falava do Veneratio, palavra derivada de Vênus, que para os romanos significava a entrega total de um ser humano às divindades, pensava que no amor esta entrega de si mesmo a amada é parte fundamental do amor. Se no Veneratio romano a pessoa se entregava ao destino despojado de todos os preconceitos e de seu passado, vivendo o presente sem se importar com o futuro, no Veneratio amoroso também esquecemos os preconceitos e o passado, mas não visamos apenas o presente, mas queremos que este se eternize.
No Veneratio esta entrega total ao outro, não visa como no casamento cristão numa promessa de amor em todas as circunstâncias (na alegria e na tristeza, na pobreza ou na riqueza) cuja a quebra resultaria num castigo eterno pois esta promessa é um juramento feito a Deus; no Veneratio não existe esta promessa e nem a obrigação com o risco de um castigo eterno, mas sim a vontade de pertencer ao outro.
O Veneratio também não é aquela promessa de ambos se unirem numa só carne se tornarem um só, mas se esta entrega é recíproca, ambos atingem a plenitude e são um só com toda a vida, se tornam uno com o universo, embora continuem sendo duas pessoas, cada qual com seus desejos e anseios, mas sempre dispostos a negociar com o outro pela manutenção da relação.
A entrega total ao outro elimina o sentimento de posse, já que a entrega foi feita espontaneamente, a posse deixa de existir, e o que passa a ocorrer é que cada um cuida do outro como um presente recebido dos deuses, e não uma propriedade que deve ser mantida.
Enfim, ainda me pergunto – porque demorei tanto tempo para me permitir esta doação?
E eu mesmo me respondo: – não foi por falta de oportunidade e de amores, mas sim por esta estúpida educação da sociedade dominadora, onde entrega é vista como fraqueza e a conquista é a lei social.
Por sorte nossa vida é longa e temos oportunidade de aprender com ela.
Ode a proteção de Vênus
Josiane Vassoler Favarato
Enquanto as horas passam penso no tempo, sinto o vento...
penso em você.
O frescor da brisa evoca o balançar das ondas, o incerto,
o inesperado, o arfar do peito... o coração.
Vejo-me no precipício, sinto-me com asas...
Mergulho no tempo, caio nas águas, morro para o mundo,
renasço só para mim.
Balbucio palavras sem nexo.
Estou tomada pela paixão, pelo torpor, pelo ardor...
Pela sensação que um dia já senti.
Sinto-me viva, mas impotente, clamo a Vênus que me ouça
e impeça que me atormente a fatalidade de não ter o seu amor.
terça-feira, janeiro 24, 2006
Os Portadores de Sonhos

Gioconda Belli
Em todas as profecias
está prevista a destruição do mundo.
Todas as profecias dizem
que o homem criará sua própria destruição.
Porem os séculos e a vida que sempre se renovam
criariam também uma geração de amantes
e sonhadores;
homens e mulheres que não sonharam com a
destruição do mundo,
e sim com a construção do mundo das mariposas
e dos rouxinóis.
Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.
Por trás de sua aparência cotidiana
guardavam a ternura e o sol da meia-noite.
Suas mães os encontraram chorando
por um pássaro morto
e mais tarde muitos foram encontrados
mortos como pássaros.
Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas
e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos
por um inverno de carícias.
Foi assim que proliferaram no mundo os portadores
de sonhos,
atacados ferozmente pelos portadores de profecias
que falavam
de catástrofes.
Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de
utopias,
disseram que suas palavras eram velhas
- e de fato eram porque a memória do paraíso
é antiga
no coração do homem -
os acumuladores de riquezas os temiam
e lançavam seus exércitos contra eles,
mas os portadores de sonhos faziam amor
todas as noites
e do seu ventre brotava a semente
que não somente portava sonhos mas que os
multiplicavam
e os fazia correr e falar.
E assim o mundo criou de novo a sua vida
da mesma forma que havia criado os que inventaram
a maneira
de apagar o sol.
Os portadores de sonhos sobreviveram aos
climas gélidos
e nos climas quentes pareciam brotar por
geração espontânea.
Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas
torrenciais
tiveram a ver com isso,
a verdade é que, como formiguinhas operárias
estes espécimes não deixavam de sonhar e construir
mundos formosos,
mundo de irmãos, de homens e mulheres que se
chamavam companheiros,
que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se
diante da morte,
se curavam e se cuidavam entre si,
se ajudavam
na arte de querer e na defesa da felicidade.
Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento
e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento
e de suas claras percepções
e de lá partiam os que os haviam
conhecido
portando sonhos,
sonhando com novas profecias
que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis,
onde o mundo não haveria de findar na
hecatombe
mas onde os cientistas desenhariam
fontes, jardins, brinquedos surpreendentes
para fazer mais gostosa a felicidade do homem.
São perigosos - imprimiam as grandes rotativas
São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos
São perigosos - murmuravam os artífices da guerra
Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas
Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos
Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.
Os portadores de sonhos conheciam seu poder
e por isso nada achavam de estranho
E sabiam também que a vida os havia criado
para proteger-se da morte que as profecias
anunciam
E por isso defendiam sua vida até a morte
E por isso cultivavam os jardins de sonhos
e os exportavam com grandes laços coloridos
e os profetas obscuros passavam noites
e dias inteiros
vigiando as passagens e os caminhos
procurando essas cargas perigosas
que nunca conseguiram encontrar
porque quem não tem olhos para sonhar
não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.
E no mundo sucedeu um grande tráfico
de sonhos
que os traficantes da morte não podiam estancar;
em todas as partes há pacotes com laços de fita
que só esta nova raça de homens pode ver
e a semente destes sonhos não se pode detectar
porque está envolta em corações vermelhos
ou em amplos vestidos de maternidade
onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres
que os carregam.
Dizem que a terra depois de os haver parido
desencadeou um céu de arco-íris
e soprou de fecundidade as raízes das árvores.
Nós sabemos que os vimos
Sabemos que a vida os criou
para proteger-se da morte que as profecias
anunciam.
(trad. Celso Japiassu)
Em ti la tierra
Pequeña
rosa,
rosa pequeña,
a veces,
diminuta y desnuda,
parece que en una mano mía
cabes,
que así voy a cerrarte
y a llevarte a mi boca,
pero
de pronto
mis pies tocan tus pies y mi boca tus labios,
has crecido,
suben tus hombros como dos colinas,
tus pechos se pasean por mi pecho,
mi brazo alcanza apenas a rodear la delgada
línea de luna nueva que tiene tu cintura:
en el amor como agua de mar te has desatado:
mido apenas los ojos más extensos del cielo
y me inclino a tu boca para besar la tierra.
Pablo Neruda
segunda-feira, janeiro 16, 2006
Romance da Deusa ll

A viagem começou com uma sensação de frio intenso, mas ao invés de me encolher na tentativa de me aquecer, meu corpo foi se enrijecendo, esticando e perdendo os movimentos. Em pouco tempo, as juntas endurecidas pelo frio começaram a se separar, os pés das canelas, os joelhos das coxas, o braço do antebraço e tudo morria. Apenas a minha mente estava ativa e viva, sentindo frio no meu corpo desmembrado.
Minha mente racional, tinha a consciência que estávamos numa manhã, porem, a noção de tempo era vaga e escurecia rapidamente, como se um dia inteiro tivesse passado em alguns minutos
Ela estava ao meu lado e eu sentia o seu calor, abri meus olhos com dificuldade e movi lentamente a cabeça para olha-la, e a vi dormindo do meu lado. Sobre seu rosto um fino véu com meandros de fractais cristalinos e transparentes. Alem do véu seu rosto trigueiro estava dourado como uma mascara de sarcófago, mas não me assustei ela estava tranqüila e linda como uma deusa adormecida, e tudo que consegui dizer foi: Eu te amo.
Seus olhos se abriram brilhando como duas estrelas rutilantes na lua negra. Sua boca se abriu num sorriso e disse: eu te amo! E eu não sei se com a mente ou palavras eu pedi: Me abrace, está muito frio e meu corpo congelado está se perdendo e fui abraçado por ela, que entrelaçando suas pernas nas minhas, e colando seu corpo ao meu, juntava com seu calor e devolvia a vida às partes mutiladas de meu corpo. Porém, melhor que me sentir aquecido era olhar para o seu rosto dourado e luminoso, agora já totalmente desvelado, do alto de sua cabeça, nascia por entre os cabelos quase negros um crescente lunar que envolvia um disco solar. Como Lúcio Apuleio, ao vislumbrar aquela que tem muitos nomes, com os cabelos cheios de estrelas, só não me joguei ao chão, pois não havia mais solo nem paredes. Com o abraço de Isis, meu corpo pertencia ao universo e neste, nós flutuávamos. E neste estado numinoso, fui beijado pela Deusa. Com a boca ainda fria e seca recebi a língua quente e molhada da divindade, sorvendo sua saliva e calor renascia, para uma nova vida, agora sem os limites da morte e tendo pela frente a infinita eternidade.
Enquanto me alimentava do seu calor e umidade, entrava em êxtase. O que até a pouco havia sido agonia se tornou encantamento e deslumbramento. Rodávamos por entre galáxias, eu inebriado de delicia e assombro fechei meus olhos num desmaio de arrebatamento, sugando a vida avidamente como uma criança recém nascida. Embalados pelos movimentos do universo ficamos naquele beijo, já que não existia tempo, por séculos e milênios até que me percebi acariciado por muitas mãos e ainda antes que abrisse os olhos, ouvi a deusa me dizer que tinha muitos braços e como despertando de um sonho transcendente percebi que entrava em outro sonho.
A deusa agora tinha muitos braços, sua língua cresceu e eu preso num abraço múltiplo, percebi, que eu também tinha muitos braços, e acariciava seus longos e escuros cabelos, pegava nos seus seios e quadris ao mesmo tempo que a puxava para mim. Como duas aranhas nos amávamos , nos agarrando e apertando, até o ponto que nossos corpos se fundindo no abraço se interpenetravam. Eu por mais que quisesse falar só podia balbuciar: Você é a Deusa, você é a Deusa...
Ela repetia: somos um só somos um só... Nossos corpos se moldavam contendo o universo e ao mesmo tempo estávamos sendo incorporados pelo espaço infinito. Estávamos repletos de estrelas e galáxias corriam dela para mim e de mim para ela, com os vasos sanguíneos repletos de luz nossos corpos brilhavam e dançávamos e nos amávamos prenhe de astros e estrelas.
Dançamos em circulo com todos nossos braços e atraiamos todo o cosmo para nós, até nem mais uma estrela restou, éramos apenas nós deus e deusa. Naquele momento estávamos plenos e repletos de luz, e nada existia a não ser nós que éramos um só, até que também fomos perdendo as cores, esmaecendo até nos perdermos na escuridão e ainda junto caminhamos nas trevas, envelhecemos e morremos, para um novo ciclo e um novo nascimento.
Trilhamos muito tempo no frio da morte até que sou despertado pelo seu choro, um choro triste e doído do que ficou pra trás, como o de Ariadne em Naxos. Eu a cobri de beijos... e envolvi o seu corpo com o meu.
E depois, de volta ao quarto onde tudo começara, me vi no espelho e com meus cabelos revoltos, lembrando mil serpentes, com um sorriso dionisíaco percebi a presença do deus de todos os transes e viagens, aquele que nos iniciou em seus mistérios, o sagrado Dionísio, nos mostrou que somos todos os deuses e também todo o universo.
Sorrindo olhei para ela, agora menina e desperta e disse: Você é a Deusa ela sorriu, como se o universo tivesse sido recriado e sorrindo me disse: somos um só, você se lembra?
Abracei-a novamente e com um beijo, nos fundimos novamente. Agora despertos e renascidos.
Amo-te mais do que poderiam dizer as palavras;
Mais que a vista, o espaço e a Liberdade.
Tu, Natureza és minha deusa.
Meus serviços a ti pertencem,
Porque deveria eu
Suportar a afronta do preconceito e permitir
Que a malicia dos povos me deserdassem.
(Rei Lear – Shakespeare)