quarta-feira, novembro 19, 2008

Bona Dea


O começo de dezembro se aproxima e é o momento de preparar a festa de Bona Déia. A principio não poderíamos simplesmente traduzir este epíteto de Fauna, por Boa Deusa, afinal “bona” é o feminino de bônus e até a época de Cícero, bônus ou bona nada tinha com bom ou boa, mas sim com “Valente”, “Aguerrido” ou “bravo” já que este escreveu: “multae et bonae et firmae... legiones” ou seja “Não apenas valentes, mas também poderosas as legiões. Portanto Bona ou bônus, só se tornaram bom e boa no período do Império e por associação, não pela etimologia da palavra”.
Assim, se o culto da Bona Dea é anterior a própria fundação de Roma, já que ela é a mãe de Latino, pai de Lavinia que casou com Enéas, portanto devemos esquecer o Boa Deusa e chamá-la de Deusa Valente, Brava ou Aguerrida, o que, por sua lenda faz muito mais sentido.
Existem duas variantes do Mito, em uma ela é a Esposa de Fauno, que tendo um dia se embebedado de vinho e ele ao chegar em casa espancou-a até a morte com varas de Mirto. Na segunda Fauna é filha do Fauno e era muito virtuosa. Um dia seu pai chegou embriagado em casa e decidiu estupra-la, ela defendeu-se como pode até ser surrada pela vara de Mirto até que encharcada de sangue conseguiu fugir.
É nesta segunda variante que se sustenta as festas a Bona Dea, as matronas romanas “sempre” virtuosas e castas se reuniam desde o inicio da republica, na casa do Pontifix Maximus ou na de um dos dois cônsules e na presença das Vestais, a dona da casa chamava as mais importantes damas da republica, para numa atmosfera de pureza e respeito comemoravam a Bona Dea. Nestas festas, exclusiva para mulheres só eram proibidas duas coisas, o Mirto e falar a palavra vinho. Não obstante as Matronas se embriagavam de vinho, porém durante a festa o vinho era chamado de copo de leite e as ânforas que o guardavam de potes de mel. Quem as ouvia de fora só ouvia elas pedindo que passassem o pote de mel ou lhe servissem um copo de leite.
Outra particularidade desta festa era que como nas saturnalias ocorria uma inversão de papeis, as criadas vestiam as roupas da patroas e eram servidas por elas.
Com o crescimento da republica Bona Dea ganhou um templo no monte Aventino, cercado por um bosque sagrado, onde ocorriam as festas em honra a deusa, para as mulheres plebéias.

Esta tão decantada pureza destas festas é traída por alguns relatos do final do período republicano:
Contam que no ano de 62 a.C. o depravado Públio Clódio Pulcro, disfarçado de mulher, penetrou na casa Pontifix Maximus, não para apreciar a festa, mas sim por estar apaixonado por Pompéia a esposa de César, que ocupava na ocasião o cargo de Pontífice. Foi um escândalo sem precedentes, que levou o degenerado ao exílio e obrigou por honra César a divorciar-se de Pompéia.
Se analisarmos os símbolos desta festa veremos que desde o seu inicio eram festas em honra da virtude de Fauna, que poderia ter morrido, defendendo a sua pureza, a proibição ao vinho tinha uma estreita relação com a proibição das Matronas de tomar vinho, numa clara repressão aos cultos de Pater Líber, o Baco romano e a Surra de mirto, planta consagrada a Vênus, que apesar de ser cultuada por ser mãe de Enéas, era vista no principio de Roma como a Vênus Calva, numa lendária atuação das mulheres romanas que em meio a uma guerra pela conquista da Itália, cortaram seus longos cabelos para fornecer cordas para os arcos do exército de Roma, Vênus sempre amedrontou aos Romanos.
A Valente Bona Dea simbolizava as virtudes que as mulheres romanas deviam ter e das quais o vinho dionisíaco e Vênus poderiam afasta-las. Sem duvida, A cidade precisava estimular a fecundidade feminina das Mães e pretendia assegurar-lhes a proteção de divindades castas e caridosas, não deixando que as matronas se enveredassem por cultos sensuais que inspirassem as suas devotas o desejo de utilizar desordenadamente os poderes que deviam celebrar.
Bona Dea por ter defendido a castidade e depois se tornar mãe de Latino, um dos ancestrais de Roma, era o exemplo que os romanos queriam para suas mulheres. Porém em tempos imperiais, onde Vênus Genetriz a protetora de Julio César e de seu filho Otavio Augusto, as festas de Bona Dea perderam toda a sua aura de santidade. No período imperial podemos ler o que escrevia o ferino e satírico Décimo Junio Juvenal, contando e trazendo até nós as depravações que ocorriam nos finais do primeiro século d. C. nos mistérios de Bona Dea no Aventino:
Todos conhecem o que se passa nos mistérios da Bona Dea, Quando a flauta excita os quadris e sob o efeito da trombeta E do vinho, as Mênades de Priapo, fora de si, soltam e sacodem as cabeleiras e vociferam” ( Satirae 6, 314-334)
E Juvenal não para aí:

A excitação, porém não admite delongas; é a fêmea na sua totalidade.
Um grito Ecoa e se propaga pelo bosque todo: Agora é permitido, deixemos entrar os homens! Se o amante está dormindo, deve despertar e tomar seu manto e vir imediatamente; se não existe amante agarra um escravo; Se não existem mais escravos, virá ajustado o preço algum servo; Se este não é encontrado e faltam homens, não há porque retardar mais, Ela se deixa possuir por um jumento. (Satirae 6, 327-334)
E triste com o que descreveu Juvenal termina:
Oxalá os ritos antigos e o culto público se celebrassem isentos, ao menos, de semelhantes infâmias. (Satirae 6, 335-336)

fontes: Dicionário Mítico-Etimológico da Religião Romana – Junito Brandão O amor Em Roma - Pierre Grimal A literatura de Roma – G.D. Leoni

2 comentários:

Anônimo disse...

Eu creio que Bona Dea,era antes de tudo,um rito feminino dee magia sexual,para gerar algum tipo de divindafe,apenas através da maximizaçao do poder feminino e sua total polaridade! Isto é claro,antes do culto se degenerar.

Helena Felix (Gaia Lil) disse...

Ou ainda caros amigos homens, ritos femininos aonde as mulheres poderiam se rebelar contra o machismo da época...Bona Dea tinha em seu clero e seus colegiados mulheres de todas as posições sociais e ainda admitidas eram mulheres estrangeiras...Não faria mal tentar ver além das crenças do pai e do ponto de vista dos homens!