domingo, outubro 29, 2006

Que mito isto daria !


Alceste e Admeto

Ultimamente tenho comparando os mitos com fatos cotidianos que vejo impressos nas paginas de jornais diários achei e já publiquei por aqui Antígona, Medeia e comparei a situação política que vivemos com um período da Roma antiga e o discurso de Cícero contra Catilina. Esse exercício me faz acreditar cada vez mais que os antigos deuses ainda vivem e nós nos negamos a perceber isto, pois por nossa mente foi condicionada para não ver, nem ouvir nada além da racionalidade imposta pela filosofia e a religião.

Lemos mitos e contos, como uma forma de nos dar um consolo, pois vemos histórias de amores impossíveis, heróis invencíveis e de ideais que revolucionaram o mundo, não para seguir seus exemplos, mas sim para dar ao nosso cérebro a porção de fantasia que ele precisa para encarar a realidade de nosso dia a dia. Não ousamos viver os nossos ideais, não vivemos a eternidade do amor nem acreditamos nos deuses que falam diretamente nas nossas conciencias. Sonhamos e ao acordar as imagens dos sonhos se esvanescem, nos apaixonamos, mas temos tanto medo do amor que logo acorrentamos a paixão e a sufocamos com racionalidades.

Poderia falar horas sobre isto, porém, quero falar de mais uma noticia no jornal, no estadão de ontem vi esta foto aí em cima com um artigo de Jose Sousa Martins – Professor Titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP. Neste artigo ele falava de um Tumulo esculpido por Alfredo Oliane que está localizado no Cemitério São Paulo onde descansa o casal Antônio e Maria Cantanella. Encomendada por Maria esta estatua ao contrario do que parece a primeira vista, não representa Antonio atormentado pela morte de sua esposa. Alfredo Oliane, o escultor fez uma das mais belas e comoventes representações do amor carnal e da dor separação. Nela se vê um homem atlético reclinado apaixonadamente beijando uma mulher morta.

Mas como ocorre muitas vezes a realidade é diferente da representação, quando foi concluída a estatua representava algo semelhante à lenda de Alceste e Admeto, onde a esposa Alceste entrega sua vida para que o seu marido Admeto, o Rei das Feras e amante de Apolo, viva o tempo que ela ainda teria de vida.

Maria pediu ao escultor que representasse o seu marido vivo e no vigor de suas forças e plenitude física e ela morta, pois é assim que ela se sentia. Para ela o falecimento de Antonio foi sua própria morte e o restante dos quarenta anos (ela era mais nova que ele) que ela ainda viveria seriam para manter viva a imagem e a lembrança do seu amado esposo, mantendo ele vivo, ela morria para o mundo.

A força desta escultura e das palavras que podem ser lidas, nos epitáfios de ambos, celebra um amor que nem mesmo a morte conseguiu destruir, Ele vivo e sexualmente potente dentro dela da sua alma ainda que morto e ela desejada ainda que morta, mas viva. Um amor que vai alem das fronteiras da vida e da morte, um amor que continua vivo mesmo depois da morte de ambos pois todos que se lembram da história sentem inveja de não ter um amor assim, ou se envergonham de não terem coragem de amar desta maneira.

Como disse antes, nos encantamos com mitos e histórias de grandes amores, mas fugimos aterrorizados diante das paixões impossíveis, com medo da dor da perda, muito antes da perda realmente acontecer.

Maria gravou na pedra sua declaração de amor a Antonio, para que suas palavras pendurassem no tempo e não fossem esquecidas pelos que ali passassem:

“Ó Nino, meu eterno esposo, meu guia e motivo eterno da minha saudade e de meu pranto.Tributo de Maria”

Quando do falecimento de Maria os familiares gravaram o seu testemunho:

“Aqui repousa Maria Cantarella ao lado de seu inseparável e amado esposo”

Tantos buscam lendas, falam dos túmulos míticos de Tristão e Isolda, fazem juras de amor como Romeu e Julieta, mas não sabem que se entrarem pelo portão lateral do Cemitério São Paulo na Rua Cardeal Arcoverde poderão por rosas vermelhas num tumulo real de pessoas reais que viveram nesta cidade e nos deixaram um legado de amor e de eternidade.


Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

Futuros amantes Chico Buarque/1993


Bem... se preferirem temas mais mitológicos, no Cemitério da Consolação existe uma escultura de Nicolau Rollo representando Orfeu e Eurídice.

Noite dos mascarados




Quem é você, adivinha se gosta de mim
Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim
Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco, que eu quero me arder no seu fogo
Eu sou seresteiro, poeta e cantor
O meu tempo inteiro só zombo do amor
Eu tenho um pandeiro, só quero um violão
Eu nado em dinheiro, não tenho um tostão
Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar
Eu sou tão menina, meu tempo passou
Eu sou colombina, eu sou pierrô

Chico - Noite dos mascarados

quarta-feira, outubro 18, 2006

Desabafo Dionisíaco



Poucos sabem ou compreendem o porque das palavras, que muitas vezes perdem os seus sentidos originais e viajam pela egolatria dos humanos e se transformam em algo que nunca foram.
Palavras são signos, sinais que desesperadamente precisamos compreender, para que possamos realmente conhecer a nós mesmos.
Gênio tem a mesma raiz de Genitalis (o que gera, fecunda) no sentido de Lectus genialis, o leito onde seriam gerados os filhos. Depois, Genialis passou a ser aquele que sacrifica ao seu Gênio, sendo então aquele que se diverte, o alegre, o festivo.Portanto Genial não é aquele “nerd” enfiado em elucubrações e experimentos em busca de um prêmio Nobel. Genial é aquele que vive e deixa sua mente livre para ter novas idéias, o que gera as novidades espontaneamente e que se diverte com isto, com ter idéias únicas, genuínas.
Porém quando influenciados pelos gregos que filosofavam e que faziam questão de afirmar que pensar dava trabalho, que era um ato de poucos e que o genial só poderia vir da lógica, não apenas mataram o gênio, como também acabaram com a poesia e o impulso da arte, pois tanto o poema quanto a obra de arte necessitaram então da métrica e da lógica. Mataram o sonho, a criatividade e todas as coisas que eram geradas em momentos oníricos.
O mundo perdeu a graça e a fantasia, os Deuses que habitavam a Terra se entediaram com a chatice humana, e nem entravam mais no sono dos humanos, pois este sonho iria ser analisado e interpretado por sacerdotes cheios de regras e normas que inseriam lógica no que nascia livremente e com isto amordaçaram aos deuses que não mais falavam com seus filhos.
Tão distantes estavam os deuses que agora precisavam de intermediários e mandamentos escritos e se tornava tão complicado falar aos homens, que não existia mais nenhuma graça em ser deus, pois aguardar os augúrios e os decifradores de sonhos era tão cansativo que dava sono aos deuses. Muitos deles adormeceram e outros foram para lugares distantes e longínquos, onde a racionalidade e a lógica não impedissem o contato com os humanos.
Apenas um, o mais humano dos deuses, não abandonou os homens. Dionisio, através do teatro e da irracionalidade desta arte, não foi submetido às normas apolíneas das artes. Anárquico, ele desafiou desde os reis e imperadores até o período negro da inquisição, levando aos homens a possibilidade de honrar seu gênio e, a partir disso, novas correntes artísticas buscavam a genialidade e a originalidade.
Porém hoje até mesmo ele se esgota em vista da mediocridade reinante, que repete formas e formas pós-modernizando tudo. O último deus também agoniza. E a criatividade e genialidade humana agonizam com ele.
Quando uns poucos como nós se voltam ao paganismo em busca da nossa liberdade de pensar e viver, sempre aparece um moralismo retrógrado que impõe regras e grita do alto da sua boçalidade e ignorância as palavras do velho bordão Cristão e dominador, “LIBERDADE NÃO É LIBERTINAGEM” se esquecendo totalmente do antigo sentido da palavra.
Libertino para os romanos era o escravo liberto, aquele que ganhou a liberdade como um favor, e não por sua luta. Portanto devemos todos inverter esta frase e buscar a verdadeira Liberdade, que é a liberdade obtida não por regras no nosso pensamento. Busquemos a nossa criatividade, a nossa Genialis Genitalis, a Genialidade que nos foi dada desde o Berço, a liberdade de Pensar e Sonhar sem seguir as velhas regras impostas pelas sociedades dominadoras e retrógradas. Vamos despertar os deuses adormecidos e buscar nas matas, montanhas e desertos os antigos deuses que nos abandonaram, pedindo que eles novamente falem conosco, nos inspirem para que recriemos o novo. Então, ao lado de Dionisio, o Pater Líber, finalmente gritemos aos opressores, que sabemos o que é liberdade e que nossa palavra de ordem, daqui por diante, será:
“LIBERTINAGEM NÃO É LIBERDADE”

domingo, outubro 01, 2006

Como foi votar com nariz de Palhaço





Na verdade não senti diferença nenhuma, caminhei uns 200 metros antes de entrar na Seção Eleitoral, passei por policiais militares e entre pessoas que saiam da eleição, não percebi nenhuma reação destas pessoas, todos praticamente fingiam não me ver, nem sorrisos e tampouco recriminação, era como não estivesse com o nariz pintado de vermelho.
Andei por dentro da seção, fiquei na fila, falei com a mesária que estava na porta e nenhuma reação, assim como os outros mesários. Sai da seção e retornei para minha casa onde limpei a pintura.
Ou seja, a impassividade das pessoas foi o que me assustou, afinal alguém com o nariz pintado, deveria no mínimo causar sorrisos.Apenas uma criança comentou com o pai, foi a única reação que percebi.
Creio que me vendo andar tanto a caminho da seção eleitoral, as pessoas se viam num espelho, ou seja, éramos todos palhaços votando em candidatos que não respeitam a nossa vontade.
Acredito no nosso país, tenho fé no Brasil. Mas para mudar o país deve haver a participação da sociedade, atos como este do nariz de palhaço, boicotes e protestos da população, pois enquanto nos quedarmos impassíveis continuaremos a usar invisíveis narizes de palhaços, somente a participação de toda a população, poderemos tirar da política estes que com suas safadezas nos levam a fazer este papel na democracia brasileira.
Somente unidos e participando poderemos colocar estes políticos que hoje riem de nós para o lugar onde deveriam estar: no circo, ou na cadeia.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Nariz de Palhaço




"Que a política nacional é uma palhaçada, todo mundo já está careca de saber. É mensalão prá cá, dólar na cueca prá lá, uma CPI que acaba em pizza aqui, um deputado 'inocentado' ali e o circo chamado Brasília vai mantendo e renovando o seu cast.
E nós, réles mortais, ficamos aqui do lado de fora, tentando descobrir a verdade que se passa dentro do picadeiro, aquilo que realmente acontece por baixo da lona.
Já que ficamos aqui, sendo feitos de palhaços, vamos assumir nossa verdadeira posição nas próximas eleições: Vamos adotar um simpático e inocente nariz de palhaço para compor nosso traje eleitoral no próximo dia 01 de outubro. Aquela pequena bolinha vermelha, que sutilmente já diz tudo.
Pode ser de plástico (os mais baratinhos), de espuma (um pouco mais caro) ou simplesmente pintando o nariz com tinta vermelha!
No enorme circo chamado Brasília nos sobra o papel de palhaços. Então, vamos às urnas caracterizados como tal!!!
ATENÇÃO: O movimento Nariz de Palhaço é completamente apartidário, não fazendo distinção a este ou àquele político, de tal ou qual partido. Apenas procuramos, de forma pacífica e bem humorada, demonstrar nossa indignação com diversos acontecimentos políticos apresentados pela imprensa todos os dias. "


"Não vá para onde o caminho pode levá-lo. Vá, ao invés, para onde não haja caminho e deixe uma trilha"

http://www.narizdepalhaco.com.br/

terça-feira, setembro 26, 2006

Amor



Amar é fazer diariamente a amada se apaixone por você,
como naquele filme “como se fosse a Primeira vez”,
com uma dificuldade a mais:
Nossa amada não se esquece das merdas
que falamos ou fizemos no dia anterior.

domingo, setembro 24, 2006

Até quando, Catilina



Em 64 a C. um inimigo da República reuniu em torno de si os descontentes e os miseráveis e tornou-se chefe de um partido revolucionário cujo programa era a redução das dividas e a partilha das fortunas. Mas cujos objetivos reais era uma ditadura e eternizar-se no poder.

"Lúcio Catilina, era de um grande vigor de alma e de corpo, porém de natureza má e depravada. Desde a juventude, as guerras civis, os assassínios, as rapinas tiveram encantos para e1e . . . Robusto de corpo, suportava a fome, as vigílias, o frio com incrível facilidade; quanto ao moral, era audacioso, astucioso, cheio de maciez, hábil em tudo fingir como a tudo dissimular, ávido dos bens alheios, pródigo dos seus, ardente nas suas paixões... Nada de excessivo, nada de inacessível havia que não atraísse constantemente essa alma insaciável. Depois da ditadura de Sila, ficara possuído do mais .violento desejo do poder supremo; e não tinha ele escrúpulos quanto aos meios de alcançá lo... No seio de uma cidade populosa e corrompida, Catilina, como era fácil, agrupara em torno de si, como satélites, todos os homens perdidos de devassidão e de crimes."

Contra ele, os moderados e os amantes da liberdade Republicana o maior orador e o mais fecundo escritor da literatura latina. Cícero escreveu contra Catilina quatro discursos chamados Catilinárias. Eis aqui o começo da primeira Catilinária que pronunciou em pleno Senado
"Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?... Aonde irão parar os arrebatamentos dessa audácia desenfreada? Nem a guarda que vela à noite no monte Palatino, nem os postos de soldados espalhados na cidade, nem o terror do povo, nem o concurso dos bons cidadãos, nem a escolha, para a reunião do Senado, deste lugar, o mais seguro de todos, nem os olhares, nem o rosto dos que te cercam, nada te desconcerta... ó tempos! ó costumes! o Senado conhece todas essas maquinações, o, cônsul as vê; e Catilina vive ainda.
ele vive? que digo eu? ele vem ao Senado... o seu olhar escolhe todos aqueles dentre nós que ele deseja imolar!"
Desconcertado, Catilina deixou Roma na mesma tarde.

Pena que em nossa Nova República, não se destacam homens honestos como Cícero, que lutou contra Catilina, César e Marco Antonio (sendo morto por ordem deste), pela manutenção da República. Pena que em nosso país a honestidade está em baixa nos homens públicos e o nosso povo mantido na ignorância, acreditando que a corrupção é natural na nossa República e em nada adiantará lutar contra a desonestidade.

Na falta de um Cícero, só nos resta parafrasear a ele, assumindo a crença de que as palavras são eternas e guiada pelos deuses. Na falta de um homem que desperte nossa República, clamamos pelas palavras imortais na esperança de que com elas, nos livremos do tirano desonesto e manipulador que nos leva a um período de trevas e para a ditadura da ignorância e da desonestidade.

Até quando, Lula, abusarás da nossa paciência?...
Aonde irão parar seus desatinos desenfreados, até quando irá repetir que não sabe de nada e que todos brasileiros são desonestos como a sua matilha, que sangra o erário, prejudicando aqueles a quem devias proteger. Até quando vais tentar nos impingir que a democracia não é uma coisa limpa!
Até quando veremos escândalos sucedendo escândalos e você repetindo que não sabe de nada ainda que seus agentes mais íntimos chafurdam na lama da corrupção?
Até quando o veremos se aliar ao que de mais podre em nosso mundo político?
Até quando veremos trabalho escravo no Brasil, crianças esmolando nos semáforos, homens puxando carroças catando lixo nas ruas enquanto vemos o presidente mentindo na TV afirmando que nunca se fez tanto pelos pobres e os bancos lucrando como nunca lucraram neste país?

Até quando, Lula?

Até quando Povo Brasileiro?

Se você concorda com isto que acabou de ler, e ainda acredita que nosso país tem jeito, e que a democracia deve ser limpa e transparente, junte-se a mim na defesa da República e repasse este Grito Ancestral, que ainda ecoa dentro de nós.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Minha vida



Nosso amor não é perfeito, ainda bem, pois como bem cantou o Gil, a perfeição é uma meta, um ponto final. E não quero ponto final para nós dois. A perfeição é divina, algo que humanos só podem almejar, alcança-la é se igualar aos deuses, e isto causa ciúmes a eles e isto eu não quero.

Quero nosso amor imperfeito e que continuemos buscando a plenitude em nosso dia a dia sem acomodação, sem deitar-se sobre os louros e sem cantar a vitória.

Sim nós sabemos que nos amamos, ambos temos a certeza do que sentimos, mas de forma alguma quero parar de te conquistar e nem quero que você deixe de me seduzir, me fascinar e surpreender a cada manhã com seu sorriso.

Somos um só, sendo dois ou sendo quatro, pois somos muitos em cada um de nós, e quero cativar cada uma das mulheres que existe em você e me enfeitiçar com cada brilho do seu olhar hipnotizante.

Quero continuar amando cada imperfeição sua, e que você coomprenda as minhas, assim somando o que dois seres tem de imperfeito e incompleto, nos completamos, e juntos daqui a longos anos de busca e de amor, finalmente seremos plenos.

Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang e sur la peau
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Accord'accord'accord'accord’a
Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Accord'accord'accord'accord’a
Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dancer dans mes bras
Vem moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise
Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateaux
Tu as le perfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Accord'accord'accord'accord
Joana Francesa (C. Buarque)


ANTÍGONA/ZUZU



Filha do incesto de Édipo com a sua própria mãe Jocasta. Quando Édipo, inteirado dos seus crimes pelo oráculo de Tirésias, se privou da vista e se exilou de Tebas, partindo como cego a mendigar o pão pelos caminhos, Antigona foi a sua companhia. O caminho que seguiram levou‑os até Colono, na Ática, onde Édipo morreu. Após a morte de seu pai, Antigona regressou a Tebas, onde viveu com a sua irmã Ismene. Aguardava‑a aí uma nova provação. Na Guerra dos Sete Chefes contra Tebas, os seus dois irmãos, Etéocles e Polinices, encontravam‑se em campos opostos: o primeiro, no exército tebano; o segundo, do lado inimigo, atacando a sua própria pátria. Quando a batalha se deu, frente às portas de Tebas, Etéocles e Polinices morreram ambos às mãos um do outro. Creonte, o rei, tio de Polinices e de Etéocles e das duas jovens, organizou funerais solenes para Etéocles, mas proibiu que se desse sepultura a Polinices, que conduzira estrangeiros contra a sua pátria. Antígona recusou‑se a cumprir esta ordem. Considerando um dever sagrado, imposto pelos deuses, dar sepultura aos mortos e, sobretudo, aos parentes mais próximos, infringiu a ordem de Creonte e espalhou sobre o cadáver de Polinices uma mão‑cheia de pó, gesto ritual suficiente para o cumprimento da obrigação religiosa. Por este ato de piedade, ela foi condenada à morte por Creonte e encerrada viva no túmulo dos Labdácidas, de quem descendia. Enforcou‑se aí e Hémon, seu noivo e filho de Creonte, matou‑se sobre o seu cadáver.

Zuzu Angel, estilista de Moda, chamada de alienada por seu filho Stuart Angel, se transformou quando este foi morto pela ditadura militar aqui no Brasil, de socialite que criava vestidos para as mulheres dos generais, não se conformou com o desaparecimento do seu filho e iniciou uma guerra contra a ditadura pelo direito de enterrar seu filho. Uma guerra solitária e com poucos aliados, já que a esquerda tradicional deve ter achado futilidade uma alienada, que costurava para as mulheres de generais, querer enterrar o filho.


Zuzu lutava pelo direito de enterrar seu filho que ela sabia estar morto e reivindicava “o sagrado direito de uma mãe de fazer o funeral de seu filho”. Usando estampas com silhuetas bélicas, pássaros engaiolados e balas de canhão disparadas contra anjos. O anjo tornou-se o símbolo de Tuti, o filho desaparecido - caracterizando suas coleções de moda: anjos amordaçados, meninos aprisionados, sol atrás das grades, jeeps e quépis.
Soube tirar proveito de sua fama, para envolver, a favor da sua causa, inúmeros clientes e amigos importantes: Joan Crawford, Kim Novak, Veruska, Liza Minelli, Jean Shrimpton, Margot Fontein, Henry Kissinger, Ted Kennedy, entre outros. Dizia sempre: "Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade".
Seu lamento e direito incomodava as autoridades, tanto que o acidente de automóvel em que veio a morrer foi bastante estranho, não ficando claro até hoje as circunstâncias dessa tragédia. Há testemunhas que afirmam que havia um jipe do Exército, logo após o acidente, na saída do túnel Dois Irmãos.Ela própria denunciou seu fim: "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho".

Estas sagas que podem ser vistas nos livros, teatro e cinema ( a Tragédia Grega Antígona e o Filme Zuzu Angel, em cartaz nos cinemas) nos mostram pontos de similaridade entre a Antiguidade e o Contemporâneo, pois mostram a revolta de duas mulheres contra as leis da sociedade em contrapartida das leis divinas e da natureza. É claro que não são apenas estas duas mulheres em épocas tão distintas que nos mostram a importância das leis divinas, as Mães da praça de Maio, chamadas pela ditadura Argentina de “las locas”, também fizeram isto, tanto pelos corpos de seus filhos quanto pela volta dos seus netos, outra lei da natureza, o direito do sangue.
Hoje nas pequenas notas dos jornais vemos um grupo de mães no Rio de Janeiro que gritam por seus filhos seqüestrados, pelo trafego ou pela policia, e que estão desaparecidos. Em todo mundo entes queridos são jogados nas valas comuns de cemitérios clandestinos, em florestas e descampados privados do sagrado direito de terem um funeral. Porém isto não causa comoção da mídia, que precisa do horror dos corpos estraçalhados nas guerras sujas. Os desaparecidos não tem fotos agonizando nem corpos físicos a serem fotografados, portanto, não são noticias.

Desde a pré-história quando o homem começou a criar sociedades, que as leis tem o intuito de controlar e regular as sociedades, e geralmente estas leis sempre favorecem as classes dominantes, aquelas que detém o poder, os ricos, os governantes e o clero em detrimento às classes menos favorecidas. Alem das Leis as sociedades se utilizam da religião para o controle das populações. Dogmas religiosos criam leis que se interpõe as leis divinas, num flagrante desrespeito a natureza humana.


O ser humano é parte da natureza e portanto deveria seguir suas regras, mas no entanto, as religiões e filosofias criadas pelas elites, coloca o Humano como ápice da criação e portanto com direitos sobre todo o restante da vida no planeta. Isto acaba dando o direito de humanos se considerarem melhores que outros humanos, criando um sistema de classes sociais e castas que nos dizem que alguns homens têm o direito de subjugar outros, criando a escravidão e a inferioridade feminina.

Mas no entanto o que vemos é que são mulheres que se revoltam quando as leis divinas são quebradas, possivelmente por ter ciclos e regras o feminino, tem uma ligação maior com a natureza, e certamente por isto é que buscam fazer com que as leis naturais sejam obedecidas.

Antígona, a filha de um Rei, morre pelo direito de dar sepultura ao irmão, de cobrir seu corpo com terra, para que este volte ao seio da Mãe, ao invés de sua alma vagar sem rumo sobre a superfície da terra.
Zuzu Angel, luta pelo direito de dar um funeral para seu amado filho e também morre por isto. Mesmo as leis humanas são quebradas quando o interesse dos poderosos são atingidos, afinal não existe em nosso país a Pena de Morte, portanto nem mesmo os agentes do governo ou suas forças amadas tem o direito de condenar alguém a morte, porém tanto Stuart quanto sua mãe, foram condenados a morte sem direito a um julgamento e a defesa, coisa que a constituição brasileira garante. Mas que quando se trata de pobres ou de “inimigos” dos poderosos, é completamente esquecida.


A igualdade, a liberdade, o direito a alimentação, o respeito aos mais fracos e aos idosos e mais uma serie de coisas são direitos naturais do ser humano e portanto não podem ser suprimidos pelas leis humanas, e nós que buscamos no paganismo uma volta dos valores essenciais e naturais, não podemos ficar indiferentes as injustiças cometidas em nome das leis e da ordem, pois estas aviltam a condição humana e são manipulados pelos poderosos.

Fiquemos então com as palavras de Antígona (narradas por Sófocles) ao responder Creonte quando indagada por que cometera o crime de ir contra o Decreto Real.


- “Desobedeci, porque não se tratava de uma determinação de Zeus. Nem a Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas, jamais estabeleceu tal decreto para os homens. Não creio, por isso, que teu decreto tenha tal força determinante, que seja capaz de permitir a qualquer mortal desdenhar o código dos deuses, imutável e não escrito, que não é de hoje nem de ontem, mas que existe desde toda a eternidade, originário ninguém sabe de onde, cujas sanções seria temeridade minha desafiar aos olhos do céu, por temor à vontade de algum homem.....Eu sei que vou morrer, eu sei que isso é inevitável, mas eu morreria de qualquer forma, mesmo sem a tua decisão.Morrer antes da hora, devo dizer-te, não deixa de ser uma vantagem para mim.O que perde com a morte quem vive em meio à desgraça? Portanto, a sorte que me reservas é um mal que não preciso levar em conta. Muito mais grave para mim seria permitir que o filho de minha mãe jazesse sem sepultura.Tudo o mais me é indiferente.Se te parece que cometi uma loucura, devo dizer-te que talvez mais louco seja quem me acusa”.

quinta-feira, julho 13, 2006

AFRODITE



Tão grande e famoso é o meu nome entre os mortais como no céu: sou a deusa Cípris. A todos que habitam e vêem a luz do sol, entre o Ponto e os limites do Atlas, se veneram o meu poder, respeito-os; mas faço cair em desgraça aqueles que nos tratam com soberba, pois grata é também aos deuses a veneração dos mortais. (...) O filho de Teseu, da Amazona nascido e pelo casto Piteu criado, Hipólito, é o único que, entre os cidadãos desta terra de Trezena, diz ser eu a pior das deusas - desdenha as delícias do amor e legítimas uniões afasta. A Ártemis, irmã de Febo e filha de Zeus, venera, como a maior entre as deusas (...). Mas hoje ainda, devido às faltas contra mim cometidas, punirei Hipólito (...) De acordo com os meus desejos, Fedra, nobre esposa de seu pai, ao vê-lo, no coração foi ferida por violento amor.

(Pequeno trecho do prólogo da tragédia Hipólito, de Eurípides. O texto original está em versos. Data: -428.)