terça-feira, janeiro 10, 2012

A força da iniciação.




Nos meus passeios de bike por São Paulo sempre vejo coisas interessantes e inusitadas, ontem quando mesmos esperava dei de cara com o grupo ILú Oba De Min, que é uma entidade feminina de preservação e divulgação da Cultura de Matriz africana, ensaiando na Praça do Patriarca. A batida estava boa e a dança bem coreografada, incluindo pessoas com pernas de pau. Reparei que tocavam pra Exú, encostei a bike, já que o mais comum é encontrar pregadores evangélicos por ali e fiquei apreciando, logo a seguir se tocou para Ogum e entendi que representavam um Xirê completo, fui ficando Oxossi, Xapanã... estava gosto ali sobre a bicicleta encostado na grade, e mesmo antes que eu me tocasse, já estava acompanhando as letras das cantigas na minha cabeça, o que é muito estranho pois não vou a um Ilê de candomblé para um toque há muitos anos. Não sei em que parte do meu subconsciente ou inconsciente tudo isto estava guardado, mas me peguei cantando praticamente todas as cantigas em Ketu, apesar de não ser a minha nação.

Após Oxumaré nas primeiras batidas para Xangô, descida bicicleta, encostei dois dedos no chão e os levei a testa, cocuruto e nuca, para saudar o rei da nação e quando finalmente chegamos a Oxalá meu orixá é Oxaguian toquei minha testa no chão.

Fiquei assombrado com a força de uma iniciação feita há quase quarenta anos atrás. E fiquei imaginando, porque vemos tanta gente iniciada que não só abandona a casa que é iniciada, como troca de culto como quem muda de roupa no dia de calor. Mesmo quando saí do candomblé, nunca o reneguei, trai meus juramentos ou revelei segredos iniciáticos. Deixei o culto, mas continuei amigo de meu pai de santo até a sua morte, e durante este tempo ainda apreendi muito com ele e com o candomblé.

O estranho é já não acontece isto nem mesmo no candomblé, hoje existe uma preocupação com o tempo, que não era tão forte há quarenta anos, transforma a iniciação em uma coisa muito simplificada, e que possivelmente não tem mais a força, que antes ela tinha.

Na minha iniciação passei quarenta dias preso no quarto de santo, sempoder sair exeto para ir ao banheiro ao lado, depois da saída passei 3 meses de preceitos, comendo sentado no chão e usando somente colher como talher, e não podia sair a rua com a cabeça descoberta e vestido de branco e foi assim que comecei a faculdade, com toda universidade olhando estranho para mim. Ainda passei pelo período de Iaô, um ano inteiro de total obediência os que eram iniciados a mais tempo que eu. Creio que tudo isto me moldou a ser que eu sou hoje. Vejo meus deuses acima de qualquer outra coisa, respeito a todos que sejam mais sábios que eu e não conto vantagens por ser iniciado.

O que vejo Hoje, nestes iniciados relâmpagos, não apenas nas religiões afro, como também nas religiões pagãs é que a falta de tempo leva a iniciações num fim de semana, não que o ato iniciático possa estar errado, mas pelo pouco tempo não é possível passar tudo o que um iniciado deveria saber e conhecer sobre sua vida dali por diante.

É isto a falta de tempo, que faz com que um iniciado não respeite aos mais antigos e sábios no culto, que faz com que não respeitem seus iniciadores e nem tampouco os seus juramentos, os tornando perjuros, gerando a possibilidade dos deuses ou orixás estragarem a vida deles, pela quebra de suas promessas.

Outra coisa é a falta de cultura e conhecimento das pessoas de hoje que buscam uma iniciação como se esta fosse uma grife, uma etiqueta que o indicariam como uma pessoa diferente do que ela realmente elas são a tirando da mesmice que é sua vida. E tanto que isto é verdade que logo após a iniciação, estas pessoas quase enlouquecem, acreditando que a divindade fala com elas o tempo inteiro, coisa que nunca acontece antes de um logo tempo após a iniciação. Já falei demais por hoje, outra hora voltamos ao assunto. Por hora gostaria de lembrar que a iniciação é a porta de entrada para um caminho iniciático, geralmente longo e penoso. A iniciação é o começo, e não o fim como muitos pensam.

P.S. Bem, na verdade não tenho muita certeza, com relação ao preço que esta pessoas pagam um dia, afinal, aos tolos e ignorantes os deuses geralmente perdoam

Um comentário:

carmensampaio.blogspot.com disse...

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